“O Português são dois…”

Voltando ao assunto que começamos há alguns dias (aliás, tenho pensado muito nisso ultimamente), percebo que há muita controvérsia em relação à questão da violência protagonizada por jovens de classes desfavorecidas. E me pergunto mais uma vez se não estou quixotescamente a combater moinhos de vento.

Fazendo um balanço do perfil de alunos adultos que tenho, vejo que, embora muitos tenham força de vontade para concluir os estudos, as condições não lhe são favoráveis. Esbarram em tantas dificuldades que vários pensam em desistir.

Tento ouvir suas razões e preocupações e tento ajudá-los, compreendê-los, e, principalmente, estimulá-los, dizendo-lhes que são capazes, que não há idade para aprender, que não devem perder a esperança, que a força de vontade deles pode levá-los a vencer as barreiras. Coisas assim. Às vezes parece que estou falando comigo mesma…

Quero tanto que todos aprendessem e se tornassem pessoas melhores, solidárias, capazes de enfrentar o mundo, a vida com competência e dignidade. Mas, quanta dificuldade… E eles dizem: “vou parar. Não tá dando mais. Tá difícil.” Difícil a vida que levam, e difícil os conceitos que não conseguem aprender.

Esqueço-me, ou pelo menos deixo um pouco de lado, as noções gramaticais, ortográficas e sintáticas, que, como já dizia Drummond, são “figuras esquipáticas” , que confundem, atropelam, aturdem” e passo a utilizar textos e assuntos que , de alguma forma, possam responder algumas de suas inquietações.

Textos sobre família, valores morais e vida em sociedade. Depoimentos de experiências bem sucedidas de outros adultos que, como eles, enfrentaram o desafio de terminar os estudos e lutarem por uma vida melhor. Falo também sobre Deus, sobre esperança e paz , sobre pedir força e coragem para enfrentar a vida com serenidade.

Muitos não têm contato direto com a família, vieram para o Rio trabalhar e não vêm os parentes há anos. e como isso lhes faz falta. Certa feita, uma aluna chorava em sala pois sua mãe que não via há anos, falecera em Minas e ela não podia viajar, pois não tinha dinheiro e nem a patroa a deixaria sair.

Trato a todos com carinho e paciência. Às vezes me descabelo. Acontece. Me exaspero. E envergonho-me. Não é fácil para estes alunos produzir textos escritos. Mas, o preconceito e a desigualdade social, a falta de oportunidades, as injustiças, estas, sabem dizê-las muito bem. A dificuldade muito grande para ler e escrever criticamente, não significa que sua leitura de mundo não seja impressionante.

Muitos alunos desistem da escola, porque precisam sair para trabalhar. Não é bom vê-los desistir, às vezes, quase no final do ano. O mundo destes alunos é cheio de dificuldades, lutas, fracassos, e pouquíssimas vitórias. Observo em seus rostos cansados, a tristeza, o sono, a fome, depois de um dia de trabalho, e sei que é um sacrifício enorme para eles virem estudar todas as noites. Muitos acabam dormindo sobre a carteira.

Pode ser que eles não aprendam a matéria que tento ensinar, mas eu, com certeza, estou aprendendo a difícil lição de viver. E me pergunto mais uma vez: quem precisa aprender ditongos e tritongos quando há um hiato em suas vidas?

Aula de Português

Carlos Drummond de Andrade

A linguagem
na ponta da língua,
tão fácil de falar
e de entender

A linguagem
na superfície estrelada de estrelas,
sabe lá o que ela quer dizer?

Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática, esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, seqüestram-me.

Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.
O português são dois; o outro, mistério.

imagem Google

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13 comentários para ““O Português são dois…””

  1. Maria Elisa Guimaraes

    Querida, querida, querida Denise
    Já vim aqui 3 vezes e em todas fico lendo este seu post.
    Sou professora e imaginei que por isso me identificaria com voc~e.
    Mas não, não é isso.
    (Muito embora eu tenha visto alunos em vias de concluir seus cursos desistirem).

    O que então me mobliza demais no seu texto? A vontade, o desejo de que você não se envolvesse tão diretamente em problemas de pessoas (alunos) que estão próximas, muito próximas de você, mas as causas desses problemas não dependem de você. E aí o sentimento fica sendo sempre só sentimento e não ação.
    Entretanto, sei que seu post é lúcido, não é uma reação emocional sua.
    É a impotência de agir no cerne da questão. E ter consciencia disso.
    Querida Denise, voce, sim, é uma heroína.
    Obrigada pelo que me mandou, ali posso ver você.

    Me perdoe por não ter me expressado melhor: estou com grandes dores de cabeça.
    Falamo-nos com certeza depois, mas sempre, sempre quro NÃO perder a oportunidade de dizer o quanto a admiro. Exatamente pelo que eu não queria que você sentisse.
    Deu para entender?
    Meu beijo e meu afeto mais sincero.
    Meg

    Meg, querida, é exatamente assim que me sinto: impotente quanto a mudar a situação deles, então faço o que posso fazer, dar um pouco de humanidade a vida tão sofrida deles. Mas, não se preocupe, não me envolvo emocionalmente a ponto de perder a lucidez.
    beijo grande , menina

  2. Daniela Mann

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    Uma Páscoa Feliz, deseja a Daniela Mann

    Ah, ah, obrigada, Mann! Lindo coelhinho! Bem-vinda!
    beijo, menina

  3. Maria Elena

    A vida pra uma pessoa que ganha os miseros reais…é dificel sim.
    Com certeza suas aulas devem ser mais do que interessantes, mas o cansaço de um dia estafante os deixam realmente sem energia pra mais nada. Mas com uma professora igual vc ,talves eles esqueçam das dores…e cheguem lá.
    Parabens por seu empenho e e amor a sua profissao.
    bjos,
    me

    Ah, minha doce Elena, quem me dera ter esse poder de fazê-los esquecer a dor… Melhor seria que não houvesse a dor, que eles fossem vitoriosos. Ando perdendo esse empenho…
    beijo, menina

  4. aninha-pontes

    É isso mesmo Denise, a vezes a sensação de impotência que sentimos, nos deixa no chão, ou sem chão, mas creia, todas as suas atitudes, valem sim, haverá aqueles que apesar do cansaço, apesar da desesperança, vão conseguir chegar, vão levar consigo exemplo de uma mulher que por amor, e apenas por amor, lhes mostrou um caminho bonito, mostrou-lhes que lutar vale a pena, que amar vale a pena, viver vale a pena.
    E o maior prêmio disso tudo é saber, que exemplo, nos leva a repetir as ações, então o que você faz, é apenas plantar nos corações dessas pessoas tão sofridas, esperança e vontade de seguir em frente.
    Um beijo querida.

    Aninha, sinto-me impotente, sim, e consciente de que muito poucos conseguirão algo realmente grande.
    beijo,menina

  5. Yvonne

    Denise, li o seu post e senti uma grande tristeza por ver esses jovens nessa situação. São abandonados e ainda lutam para conseguir algo de bom em suas vidas. Ser professora é a melhor profissão do mundo. Ainda bem que eles têm você a lhes dar um bom exemplo. Querida, que desânimo eu senti. Beijocas

    Não sei , não, Yvonne, às vezes penso que deveria estar fazendo outra coisa que desse resultado rápido, visível. O que planto hoje, talvez nunca vá ver florescer…
    beijo, menina

  6. valter ferraz

    Denise, a sensação é de fazer rolar o mundo empurrando apenas com as mãos, não?
    Às vezes vejo pessoas idealistas com uma expressão nos olhos cuja única tradução seria: quixotesco! são sonhadores, quase lunáticos.
    A impressão que fica é de que é inútil lutar, o eterno enxugar gelo.
    Mas o contato humano, a proximidade que vc tenta com êles, deixa marcas. Muitos ficarão pelo caminho, mas os poucos que vc levar até uma vida melhor terão valido a pena. Você vai ver.
    Paz para você,
    Um beijo

    Só isso tem valido a pena, Valter…
    abraço,garoto

  7. Lord Broken Pottery

    Denise, querida,
    Seu texto me comoveu profundamente. Há uma rádio aqui em São Paulo, a Jovem Pan, que tem mostrado diariamente as deficiências de nosso ensino. Jovens da oitava série entrevistados, não sabem responder questões básicas como: quem descobriu o Brasil, qual a capital do país, em que continente estamos. É desesperador. Ou convivem com um ensino de baixíssima qualidade ou, mais tarde, tendo que ganhar o sustento, acabam parando de estudar. É triste vermos um país jovem com tão poucas oportunidades e cuidando tão mal de seus filhos. Existem momentos em que, desanimado, só penso em sair daqui. Parabéns pelo heroísmo e perseverança. Gente como você faz a diferença.
    Beijão

    Às vezes penso que seus cérebros já não estariam comprometidos desde a concepção… Tanta violência e miséria, uma vida nada saudável, tantas necessidades que não foram atendidas na infância. Não sei, mas eles têm muita dificuldade para reter o que aprendem.
    abraço, garoto

  8. Cejunior

    Denise, agora quem ficou triste fui eu… acabei de perder o enoooorme comentário que tinha escrito aqui. E ainda não entendi o porque!
    Mas eu falava que dá um desânimo muito grande ver que entra ano sai ano, nada muda para esses jovens: continuam sem futuro, sem perspectivas e com a responsabilidade injusta de tão cedo sustentarem suas famílias.
    E se não fossem abnegados como você, seguiriam sem norte nenhum nesta vida….
    Estamos jogando fora a juventude desse pais. Criminosamente, por omissão.
    Como disse Lord Broken, você está fazendo diferença!
    Beijos

    Também não entendi. Não está na pasta de spam, talvez algum problema no WP. Mas, é verdade, são uns poucos que conseguem mudar algo. Outros já entregaram os pontos. Dá pena de ver.
    abraço, garoto

  9. Alline

    Eita, mudou tudo aqui. Ficou lindo!
    Beijos

    é, tô naquela fase de ficar mudando os móveis de lugar, sabe…
    beijo,menina

  10. D. Afonso XX o Chato

    É a triste realidade. E depois ainda querem falar em internet, inclusão digital e o escambau. Como, se já lhes falta esse mínimo, que é uma vida um pouco digna? Triste. bjs

    Muito triste mesmo… acabam na economia informal, os peões da vida.
    abraço, garoto

  11. Mamy

    Seus alunos têm sorte, porque você demonstra essa compreensão ímpar da situação deles. Mas… infelizmente nem todos os professores são assim, muito provavelmente por terem que enfrentar a própria carga de suas vidas…

    é verdade, mas não os julgo. a tarefa é muito difícil. Ontem mesmo uma amiga me disse que trabalha com meninos que mandam os professores pra tudo quanto é lugar…
    beijo, menina

  12. Nani

    É uma questao bem complicada mesmo, cansados, preocupados, sobra pouca energia. Muito bacana saber do teu empenho e da maneira em que os encara. Uma consciencia de fazer um pouquinho que seja, alcancar o que dá.
    abraco grande

    Muito legal recebê-la novamente por aqui,Nani! Bem, como não vejo resultado pelo lado cognitivo, percebo o crescimento do lado afetivo. E para isso não há nota nem reprovação.
    beijo, menina

  13. leandro

    como q eu fasso desenhos parecidos com esses ai linda

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