Isolamento, socialização e violência

Privacidade ou isolamento?

Assisti ao filme Nell, dirigido por Michael Apted, que trata desta questão do isolamento e suas consequências. A trama do filme acabou me propondo (entre outras, é claro) uma reflexão acerca da necessidade do convívio entre seres humanos para a configuração ou caracterização humana das pessoas.

Fiquei pensando em como o meio social adverso pode moldar o caráter de uma pessoa e refletindo sobre a dificuldade que temos, muitas vezes, de nos relacionar com outro ser humano, quando vivemos reclusos em nossos próprios espaços. Quero refletir mais sobre este assunto, mas, antes, vamos relembrar o filme:

Nell (Jodie Foster) vive na floresta, no estado americano da Carolina do Norte. Lá cresceu, isolada do mundo, tendo contato apenas com sua mãe.  A partir de o derrame de sua mãe, passou a se comunicar baseando-se nos conformes fonéticos da mãe, e acaba criando um linguajar próprio, incompreensível para os padrões normais.

Depois do falecimento da mãe, passa a viver de forma aproximada do padrão dos animais, até ser descoberta pelo doutor Jerome Lovell (Liam Neeson), que se preocupa com Nell e tenta dar a ela educação e proteção. O problema é que Lovell é apenas um médico interiorano, que não possui conhecimento e preparo para lidar com um problema de socialização tão complexo quanto o de Nell.

Histórias como estas nos levam a refletir sobre outra questão: a da possibilidade de sobrevivência em condições totalmente adversas e não humanizadas. A conduta assumida pela sociedade, dita civilizada, em relação à tais pessoas seria a mais adequada? E o respeito quanto ao fato de estarmos lidando com um ser humano e não com animais?

Barbaridade? Para quem?

A este respeito, li um artigo muito interessante, de Tadeu Breta, in “barbaridade?”, do site oreverso.blogspot.com, do qual extraí alguns trechos:

“… eficiente e necessário é pensar um pouco a realidade das pessoas responsáveis por tal ato, brutal e desumano a nossos olhos. Sim, aos nossos olhos. Porque no deles, na cabeça dos facínoras (para usar a expressão do presidente Lula), certamente não existiu brutalidade em atear fogo num ônibus de turismo e queimar sete pessoas inocentes até a morte.

Ou existiu – e eles estão pouco se lixando pra isso. Talvez porque esses jovens nasceram e cresceram na periferia, talvez porque a realidade da periferia não seja, digamos, suave como a nossa. Certamente esses jovens já se chocaram com a morte tanto quanto (ou mais do que) nós com esse último ataque do crime organizado. Nos chocamos porque é uma das primeiras vezes que vemos coisas do tipo – vimos também em São Paulo, nos idos de maio.

Eles, eles não. Já se cansaram de perder amigos e conhecidos na guerra silenciosa que mata muita gente nos recantos mais afastados da periferia – pelas mãos da polícia, do tráfico ou de cidadãos comuns que estreiam no crime para vingar adultérios, brigas mal resolvidas, jogos de futebol, enfim, casos banais que poderiam ser solucionados de muitas outras formas se não houvesse uma arma de fogo na parada.

É de conhecimento público: as vítimas preferenciais de homicídios no país são jovens de 15 a 24 anos, negros, pobres, moradores da periferia. Desta forma, não podemos simplesmente esperar, do alto de nossa inclusão social, que os jovens absorvidos pelo tráfico tenham visões semelhantes de brutalidade.

Mesmo porque o jovem da favela foi criado numa realidade brutal o tempo todo, quando levou a primeira geral violenta da PM, quando o pai foi despedido do subemprego, quando o primo bateu na mulher, quando o vizinho foi encontrado morto com 12 tiros na cabeça do lado da porta de casa, quando o irmão foi preso, enfim.

Portanto, é muito fácil sair por aí garganteando que queimar ônibus e carbonizar inocentes é uma barbaridade sem fazer essa diferenciação. É um crime hediondo, claro que é. Mas, para quem?

Antes de mudar a legislação, consolidar o Regime Disciplinar Diferenciado, pregar a pena de morte ou tipificar o crime de terrorismo no Código Penal, bem antes, talvez seja melhor começar a prestar mais atenção no outro Brasil, naquele que não aparece na televisão.

Ou que só aparece quando acontecem essas… barbaridades. “

Eu me pergunto se o contato com o meio adverso não seria preponderante em nossa definição de caráter. Isso explicaria como podem indivíduos agir friamente ao cometer crimes ou barbáries? Não seria para eles natural em seu “habitat” tais barbáries? A solução seria eliminá-los ou socializá-los? Tremo só em pensar que talvez estejamos percorrendo um caminho sem volta…

Imagem: Violência, Picasso

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11 comentários para “Isolamento, socialização e violência”

  1. Claudia

    Amiga, vou tentar mudar para o wordpress, também… Vc está me animando…. teu blog tá lindo… quanto ao que acontece no Rio, em Sampa, em Londrina, no mundo…acho que os caras aqui embaixo (todos!!) precisam buscar mais as coisas la do alto… Faço minhas orações pelas vítimas (pais, mães, filhos, esposas, esposos e muita gente) que sofrem a violência… Querida, uma ótima semana para vc!!

  2. Mauro Castro

    Vou pensar a respeito. Prometo.
    Há braços!!

  3. denise

    Mauro,todos precisam pensar seriamente a respeito. Naõ adianta prender ou matar alguns,O foco continua lá, e precisa de cuidados.
    abraço, garoto
    ———————————————-
    Claudia, mude para o onde se sentir melhor e adaptada. Eu ainda não desvendei todos os mistérios daqui.
    Ah, ah, quando você diz que todos precisam buscar mais as coisas la do alto, penso que se Deus está em nós , poderiamos ter um mundo melhor. Há interesse político , corrupção e cumplicidade que impedem que a indústria da violência acabe… Querida, uma ótima semana para você, também.
    beijo, menina
    ————————————————-
    Yvonne, na verdade eu havia avisado que aos poucos estaria arrumando a casa aqui, ainda não entendo todos os mistérios do wordpress, mas devagar vai ficando como espero.
    Espero que a situação em Campos melhore e voce possa dar uma passadinha no Rio, tomara.
    E viver sozinha só é bom por opçao, não por imposição da vida, o que gera a depressão.
    Quanto aos meninos, é exatamente isso, não são amados e nem são considerados gente, e tratam as pessoas com a mesma brutalidade com que são tratados.
    Beijo, menina
    ————————————————–
    Silvio, concordo que estar só não significa necessariamente infelicidade. Com a solidão, enquanto opção, com certeza descobrimos sentimentos e valorizamos aqueles que não estão conosco. E detectamos os amigos e aqueles que se sentem apenas penalizados com nossa “solidão” e os que sentem inveja de nossa condição independente. Conheço as três situações.
    abraço, garoto
    ————————————————–Aninha, acho que não é fruto do meio, mas influenciado por ele.O que molda esses meninos acredito que seja a dor e violência,de que são vítimas e ninguém se incomoda. E reproduzem-na, até que recebam um caminho diferente pra trilhar.
    Espero que muitas ações sejam feitas com esses meninos pra que reescrevam sua história e sejam felizes.
    beijo, menina
    ———————————————–

  4. Meire

    Denise, Feliz 2007 e obrigada pela visita.
    Menina que pèostagem linda, essa é pra ler, reler e pensar.
    bjs

  5. Yvonne

    Denise, na medida do possível, eu acesso os blogs queridos todos os dias pela manhã. Levei o maior susto quando vi tudo mudado e com tantos posts. Pensei que tinha abandonado você, rsrsrs.
    Querida, apesar de você ter dito que não poderia ir ao encontro, estou comunicando que não haverá mais porque a ponte que faz parte da BR-101 localizada na cidade de Campos está interditada.
    Eu nunca vivi sozinha, logo os poucos minutos que não tem ninguém do meu lado, eu os considero preciosos.
    Quanto a esses meninos, é exatamente isso que eu penso. Eles não são amados e nem são considerados gente, logo não reconhecem os demais seres humanos como gente.
    Beijocas

  6. Sílvio Vasconcellos

    Olá Denise.
    Obrigado pela visita e volte sempre.
    Sua divagação sobre a solidão e o convívio me fez pensar sobre uma falsa analogia que fazem entre a solidão e a tristeza. Estar só não significa necessariamente infelicidade. A solidão, enquanto opção, é uma forma interessante de introjetar-se, de descobrir sentimentos e dar valor àqueles que não estão acerca de nós.
    Um beijo

    Sílvio Vasconcellos

  7. aninha-pontes

    Pois é, eu realmente acredito que o homem é fruto do meio.
    Se voce oferece apenas dor e violência, como quer que saia daí, alguém, que pense no próximo com amor e carinho?
    Não dá simplesmente prá julgar, por julgar.
    Penso que a insatisfação do ser humano,é responsável por muita coisa.
    Se as pessoas têm um objeto de desejo, ou um sonho, luta para conquistar,mas se consegue, aquilo deixa de ser importante, passa a sonhar com outras coisas, e vai sempre querendo mais. Não importa a que preço.
    Aí, acredito que entra a importância da socialização. O que ensino aos meus filhos, o que eles vivem e viveram comigo, terá com certeza um saldo positivo.
    Bom não sei se consegui dizer o que queria, de qualquer forma, está dito.
    Beijos querida.

  8. Jan

    Vc como sempre dando um show na escrita…olha eu tenho muita necessidade de gente, mas as vezes tb gosto de estar sozinha, gosto de estar comigo, sabe como é? No mais é realmente um post para se pensar, quando o assunto é violência a que se pensar muito, e agir para tentar mudar. Um cheiro.

  9. Nealdo

    Olá, Denise!

    Pronto, finalmente consegui atualizar o meu blog e pôr o seu novo endereço. Reconheço que tenho tido pouco tempo para os ares virtuais. Quanto ao livro, ainda não está publicado. O prêmio me concedeu o direito de publicá-lo. No momento, estou correndo atrás de editora, porque tenho um prazo para a edição. Tão logo sair do prelo, aviso direitinho, ok. Beijos.

  10. Jane

    No caso de Nell, ela permaneceu muito tempo, pelo isolamento, numa inocência que todos gostaríamos de ter – e que por um lado é até desejável, mas, no mundo onde o homem é o lobo de si mesmo, é perigoso… Uma pena…

  11. lu olhosdemar

    mudanca no clima simplesmente assustadora! beijo, querida, to voltando.

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