… não espera acontecer…

O post anterior suscitou comentários que “cutucaram” minha postura diante da situação violenta que invade, não só as escolas, mas a sociedade. Reproduzo aqui algumas questões levantadas e as considerações que fiz, como uma reflexão a respeito da pergunta que faço diariamente a mim mesma: desistir ou continuar?
Vamos lá?

Atualizando

A despesa para manter um menor infrator em regime de internação é de pelo menos 4.400 reais por mês. Esse valor representa o gasto do Estado para manter 28 alunos no ensino público fundamental. O custo anual do aluno no Brasil em escola pública está estimado em 1.900 reais, segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico. Especialistas defendem mais investimento em ensino, e que o Estado trate a educação básica de fato como prioridade.
Há o que pensar…

****

A Aninha frisou que os alunos também precisam de que eu os olhe além deles, mas não com olhos perdidos, mas que os veja além do que estão mostrando. Esta parte é difícil, dolorosa, pois me sinto impotente, por isso disse que apenas os escuto. E faço o que me é possível: dou afeto e atenção. Por enquanto, se não, desmonto também. Ainda estou convalescendo., Sou humana, não é?

Já a Luma questiona a “violência” dos professores. E cita o caso da que cortou a língua do aluno. Acredito que, nós, professores, precisamos perceber a hora certa de nos afastarmos pra recarregar as forças. Um afastamento pra cuidar da saúde é melhor que trabalhar sobre tensão. Há muitos professores afastados ou readaptados, que “surtaram”. Por isso, procuro manter um afastamento saudável. Lembro-me, com carinho, de minhas professoras. O tempo era outro. “A maior riqueza que levamos dessa vida, são as pessoas com que realmente partilhamos afeição”, com certeza!

O questionamento da Mamy é em relação à dificuldade, eu diria até, impossibilidade, de se olhar esses meninos violentos como pessoas. E é muito triste pra mim ver que, não só o pessoal da “Justiça”, mas todos os envolvidos diretamente com o trabalho com adolescentes “de risco” não estamos preparados para tratar desses meninos. São estigmatizados como “bandidinhos” irrecuperáveis…

Não sei se eu era menos suscetível a esta questão antes de perder meu menino, como diz a Elizabeth, pois eu preferiria que este aprendizado fosse menos doloroso… Paguei um preço tão alto para “mudar a maneira de olhar a vida e concentrar-me no que realmente interessa: o ser humano”. Mas, concordo que esta experiência me proporcionou perceber o acolhimento de pesso@s que nunca me viram, o que me mostrou que nem todo mundo é cruel. Há pessoas que nos amam e nos apóiam. Será que meus alunos também não vêem isso em mim?

Como bem disse o Cejunior , também me sinto freqüentemente: “dando voltas em torno do mesmo tema”, mas, se não mantiver a esperança, acabaremos “surtando” como vimos acima, o caso de professores que reproduzem a violência a que estão expostos. Minha experiência pessoal me fez mais humana, pois, cada aluno meu que morre, vítima de violência, me faz lembrar, o quanto ele é precioso pra alguém: a mãe. Outros, não fazem falta pra ninguém, pois ninguém os queria.

A força para continuar lutando, busco em Deus, todos os dias, em oração, muita fé, no apoio dos amigos ,e, com certeza, em minha Princesinha (netinha de um ano), que merece um mundo melhor.

Falei sobre esta minha “mudança”, no post execução e perdão . Talvez esclareça o porquê de eu não desistir. Indignação e esperança. Não sei se vai dar certo. Apenas tenho de continuar acreditando. “Poderia ser com seu filho…”, não é assim que dizem por aí?…

Pra não dizer que não falei de flores!

(Geraldo Vandré)

Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais, braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção

Vem, vamos embora que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora não espera acontecer

Pelos campos a fome em grandes plantações
Pelas ruas marchando indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo canhão

Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão

Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Somos todos soldados, armados ou não
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais, braços dados ou não

Os amores na mente, as flores no chão
A certeza na frente, a história na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Aprendendo e ensinando uma nova lição“…

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7 comentários para “… não espera acontecer…”

  1. Elizabeth

    Oi Denise,
    Eu tive o privilegio de aprender sem precisar sofrer. talvez se tivesse passado pelo que voce passou a reação teria sido contrário e me posto violenta e menos compreensiva com todos. Sempre tive um temperamento capaz de perdoar tudo em nome do amor, creio que até as barbaridades são feitas por desespero e pela procura da tal “felicidade”. Ninguem quer sofrer e o conceito de felicidade são muitos, uns crêem dela estar em bens materiais e acho por isto existe tanta ganância que mata tanta gente.
    Gostaria muito de te ver feliz e que seu filho pudesse estar vivo ao seu lado, mas como alguns dizem “Deus não dá um fardo que não se possa carregar, pois pior que seja”, acho que por isto não passei por nenhuma tragédia, SOU FRACA.
    Bom final de semana para você Linda, eu estou de molho com a garganta inflamada (no meu final de semana de folga, ninguém merece…)
    Beijos

    se é assim, eu gostaria de ser fraca… Se cuida, pra ficar boa logo dessa garganta, tá.
    beijo,menina

  2. nanda

    Dê, querida, eu trabalho numa escola na periferia de Bauru, um dos bairros mais discriminados da cidade. Até eu, quando fui transferida pra lá, fiquei com o pé atrás. MAs foi convivendo com aqueles pequenos que eu aprendi que devemos acreditar nas pessoas, por mais que isso nos faça sofrer. Eu sei que essa dor é incomparável, mas não podemos desacreditar, não é?
    Eu sigo caminhando e cantando, e tenho orgulho disso, embora muitas vezes os fatos insistam em me fazer desistir.
    Beijos querida, e tenha um ótimo final de semana!!!

    Por que será que a gente continua, mesmo quando tudo parece que não dá certo?
    Só pode ser a fé e a esperança.
    beijo, menina

  3. Cejunior

    Denise, esse tema vai render muita conversa ainda. Na verdade todos temos que assumir algum tipo de responsabilidade por essa juventude ou vamos perde-la de vez.
    Você deve estar acompanhando o caso dos franceses mortos pelo ex-menor que foi amparado por eles. Já ouvi muita gente boa afirmar que “esses garotos são um caso perdido”. Apesar de chocado com toda a brutalidade do crime, não penso assim não. E tomara que as pessoas que hoje se dedicam a auxiliar essa gente também não. Vamos ter alguma esperança sim.
    Um beijo e grato pela visita.

    Claro que devemos ter alguma esperança sim! A própria subsecretária de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente, Carmem Oliveira, disse que o aumento da punição aos jovens infratores não é garantia para a redução da violência urbana. Por que será? Muito investimento e pouco comprometimento. Muita violência e pouco afeto. Se acharmos que todos são irrecuperáveis, como o ex-menor, então, não vale nem mais a pena viver…

  4. valterferraz

    Denise, lendo todo o post fui refletindo em tudo o que vc disse. Você deve ter reparado que no post anterior não comentei nada. Não foi por pouco caso com você nem com o tema. Foi falta do quê dizer. Tenho uma opinião um pouco diversa, um tanto drástica à respeito. Mas agora no último comentário, na tua resposta eu encontro algum sentido no que dizer.
    Veja, aqui em São Paulo anos atrás, um menor que já havia passado pela Febem, matou um casal de namorados que foi acampar num sítio. Foi muito noticiado, os caras presos. Protestos, das pessoas, imprensa,etc. Bom os anos se passaram e o tal menor está prestes a sair da Febem. Chances de ter se recuperado? Nenhuma. E êsse é paenas um caso. São inúmeros todos os dias. Esse caso dos franceses vai na mesma direção. Tem saida para esses caras? Creio que não.
    Masw, de repente vem uma pessoa como você, que acabou de perder um filho para a mesma violência e fala em ajudar, dedicar seu tempo e forças para mudar e eu digo o quê para você, que você está errada? Acho que não. Talvez errado esteja eu mesmo com minha idéia radical de pensar.
    Abraço grande

    Olha, Valter, se estou certa ou errada, não sei. Só sei que aprendi a amar os inimigos e fazer bem aos que me maltratam. Sou cristã e acredito nisso. Antes eram apenas palavras sem sentido pra mim, mas agora, sei bem o que elas querem dizer. “O ódio excita contendas, mas o amor cobre todas as trangressões”. Eu tinha de escolher entre uma vida de angústia e depressão regada pelo ódio, ou renascer em perdão, esperança, fé, solidariedade. Se me sinto bem, é porque este deve ser o caminho certo. Que Deus nos ajude.
    abraço, garoto

  5. acomentarista

    Desistir nao! Ao contrário! Jogar a toalha e fazer o quê depois?!

    beijos

    Ficar de braços cruzados esperando o circo pegar fogo? Ou “tacar” fogo nele antes? Que tal tentar apagar o fogo?
    beijo,menina

  6. valterferraz

    Denise, também acho que você fêz a escolha certa. Perdôa minhas palavras que sei, às vezes são duras. Ninguém é perfeito, né?
    Um beijo para você

    É assim mesmo, Valter. A primeira reação é de ódio e indignação, mas depois, o bálsamo divino começa a atuar no coração de todas as mães que perdem filhos. Elas acabam se tornando pessoas melhores, como ouro provado no fogo.
    beijo, menina

  7. aninha-pontes

    Denise, até na escolha, ou na opção de vida que voce fez a partir, da tragédia que se abateu sobre voce, é por pura inspiração e amor de Deus, voce está certa, ninguém consegue viver com a dor da perda, associada ou somada à dor da revolta, do ódio. Esta soma de sentimentos ruins machuca demais.
    Voce tem uma alegria, que é a Clarisse, chegou em sua vida, te dar alento, e te mostrar que a vida vale a pena, que amar vale a pena, que acreditar vale a pena.
    Agora, claro, que sentimentos de indignação perante a dor do próximo voce vai sempre sentir, não há como não transportar isso prá voce, e sempre se sentir impotente, querer fazer mais.
    Como voce disse é humana.
    Um beijo linda! Fique com Deus,e em paz.

    Ah! hoje é aniversário do Adelino.

    Aninha, eu não tive muita opção. Acho que a vida me impôs isso: não me entregar. A Clarisse serve pra me lembrar de que não posso recuar. O ódio estava me adoecendo, agora, ficou a tristeza e uma saudade tão grande, mas não há mais amargura. Obrigada por tanto carinho!
    beijo, menina

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