Mães perdoam

Por que este post?

Durante algum tempo, incomodava-me o fato de alguns amigos considerarem-me uma pessoa iluminada ou especial por eu perdoar quem tirou a vida de meu filho. Mas , a capacidade de uma mãe perdoar o assassino do filho é muito mais comum do que se imagina. Não sou a primeira, e nem serei a última, que descobriu que, mesmo quando se tem um ente querido arrancado da família de forma brutal, ainda é possível encontrar forças para perdoar.

Faço este post, não por ser uma pessoa mórbida, mas para mostrar que o perdão foi a coisa mais importante que aprendi em todas as adversidades por que já passei. Nenhum sentimento foi tão vital pra minha vida quanto este. E não é privilégio só meu. Vejam outros casos reais de pessoas que passaram por situações semelhantes ou piores que a que vivenciei e que receberam o dom de perdoar e hoje estão bem.

É o amor que ajuda a curar as feridas

Em pleno julgamento, mãe argentina se aproximou do assassino de seu filho, perdoou-o publicamente, deu-lhe de presente um terço, abraçou-o e pediu que se aproximasse de Deus. A história aconteceu na cidade de Esquel, na sulina província de Chubut.

Ana María Suárez foi ao julgamento de Fabián Chávez, de 25 anos de idade, assassino confesso de seu filho Mariano Drew. Diante dos presentes, a mulher afirmou “somente a oração acalma a cada dia minha dorMas também pensava em você, que é tão jovem. Não vou te fazer mal. Só quero te dar isto“, disse-lhe antes de entregar um terço.

E acrescentou: “Só Deus cura as feridas. Eu te perdôo. E se meu filho te ofendeu te peço perdão. Eu o amava e agora quero que você não sofra. O destino que te cabe me dói porque trabalho com jovens. Nesta terra há muita violência. E você foi vítima dela desde que nasceu. É o amor que também ajuda a curar as feridas”. E o abraçou. (leia aqui)

Se todos tivéssemos um coração assim…

A dolorosa despedida do casal de missionários assassinados em Palau, na Micronésia, juntamente com seu filho de 11 anos, foi enriquecida por uma surpreendente demonstração de espírito de perdão da parte da mãe do pastor Ruimar de Paiva. Para surpresa de todos os presentes, Ruth DePaiva convidou a mãe do homem acusado de matar o pastor, sua esposa e filho, para permanecer ao lado dela junto ao altar durante boa parte da cerimônia.

O Presidente da República de Palau, Tommy Remengesau, afirmou que considerou o crime uma “chocante tragédia”, e que ele, como muitos, ficou sensibilizado pela visita e o perdão de Ruth DePaiva ao assassino de seu filho, nora e neto. “Esse é o tipo de coração que todos nós deveríamos ter, porque se todos nós neste país tivéssemos um coração assim, nada disto teria acontecido.” (leia aqui)

Ela também perdoaria

Em 2003, uma missionária americana é morta a tiros no Líbano por um suposto militante islâmico com três tiros na cabeça, em uma clínica de uma igreja no sul do Líbano. Bonnie Weatherall, uma californiana de 31 anos e assistente de enfermagem no centro de saúde para mulheres, foi baleada durante a manhã, quando ingressava no edifício, na cidade portuária de Sidon, a 45 quilômetros ao sul de Beirute.

O marido dela, Gary, britânico, disse que perdoa o assassino e afirmou estar convencido de que ela também perdoaria. “Perdôo qualquer um que fez isto. Hoje Bonnie está com o Senhor, e ela está contente no céu”. (leia aqui)

Perdão é uma coisa e justiça é outra

Em 1997, o menino Ives Yossiaki Ota, de oito anos, foi seqüestrado por três homens em sua própria casa, na zona Leste de São Paulo e, um dia depois, morto com dois tiros no rosto. Desesperado, o pai de Ives chegou a pensar em matar os três seqüestradores, mas decidiu deixar a arma e levar uma Bíblia para o tribunal. Ao invadir a sala onde estavam os acusados, colocou o dedo no peito de cada um deles e pediu que o olhassem nos olhos.

Porém, surpreendeu a todos: ele disse para os bandidos que não queria matá-los, mas, sim, perdoá-los. Em 2001, o comerciante declarou que o ato de perdoar os assassinos do filho não significava que queria que eles fossem soltos, mas era uma forma de tirar o ódio de dentro dele. “Perdão é uma coisa e justiça é outra. A justiça tem de ser cumprida”. (leia aqui)

É uma questão de tempo e fé

Nem todas as mães que vivenciaram perdas trágicas tiveram a experiência renovadora do perdão. Mas observei que, as pessoas que têm fé, ao perdoar seu inimigo, reconhecem o ato de Jesus na cruz, ao perdoar seus algozes. Por isso somos cristãos, ou seja, seguidores de Cristo. Não estou aqui falando de religião, mas de fé genuína em Deus .

Li nos jornais que a comerciante Rosa Cristina Fernandes, mãe do menino João Hélio, disse que perdoa os pais dos jovens que assassinaram seu filho. Mas, ressalvou que, para o crime, não existe perdão. Achei interessante ela dizer “para o crime“. Por que não disse “para os assassinos“? Ela declarou que havia levado o filho para a evangelização. Então, ela tem fé! É só uma questão de tempo… O perdão é divino. (leia aqui)

Portanto, meus amigos, não pensem que sou iluminada ou uma melhor que ninguém. Se eu e essas pessoas não tivéssemos a fé que temos, talvez hoje não vivenciaríamos a bênção revitalizadora do perdão. Não sou a favor de se perdoar o crime. Este, não tem perdão. Perdão é para o pecador, não para o crime, que deve ser punido, com certeza.

Quem perdoa sabe que Deus é justiça e, por isso mesmo, suas leis jamais se enganam. Perdoar é receber com resignação os fatos que não se pode evitar ou mudar, com a certeza de que a justiça divina não se equivoca e nada acontece conosco se o criador não permitir.

“Perdão é uma coisa e justiça é outra. A justiça tem de ser cumprida.”

desenhos de Roberto Carlos, scj

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11 comentários para “Mães perdoam”

  1. valterferraz

    Denise, um beijo grande para você. Com todo o carinho possível entre duas pessoas que jamais se viram pessoalmente, mas cujos corações batem no mesmo compasso. Aprendo com você. Todos os dias.

  2. aninha-pontes

    Denise, meu bem, voce tem razão com relação ao tempo.
    Acho lindo essa sua demonstração de fé e desprendimento do sofrimento. Sim, porque não tenho dúvidas, que o fato de voce se sentir livre do ódio, do rancor, da mágoa, te faz uma pessoa menos sofrida.
    É um exercíco que todos nós temos que praticar, não acho que seja fácil perdoar sinceramente, sem muita oração e muita fé em Deus.
    Já te disse isso, é algo que peço a Deus todos os dias, o dom do perdão, ainda não consegui, tenho muitas mágoas em meu coração, que simplesmente guardei, fechei, para que elas me deixassem viver, mas seria mentiroso dizer que perdoei ou esqueci.
    Mas continuo fazendo minhas orações neste sentido, quero muito sentir que o perdão já faz parte de minhas ações e atitudes.
    Um beijo querida.

    Aninha e Valter, eu também estou aprendendo a cada dia. E é por isso que eu digo que este tipo de perdão é algo divino. E refiro-me a mães que perderam filhos assassinados. Quanto a outras mágoas, ainda não tenho tanta facilidade pra perdoar e esquecer. Uma traição do marido, a agressão de uma pessoa em quem você confiava, alguém que o humilhou ou machucou, ou coisas que refletiram diretamente em sua vida, estas são guardadas e sempre vêem à tona. Mas, em relação a meu filho, eu pedi a Deus e aconteceu. Minha filha me disse que o assassino também tem uma mãe. Me doeu muito isso. Acho (isso é minha opinião) que a paz vem quando temos a resposta de Deus de que ele está em um bom lugar, e por isso o perdão é liberado de maneira sobrenatural, não tenho outra explicação, a não ser que seja algo divino e não uma capacidade humana, entendeu?

    beijos, meninos

  3. Mamy

    Denise… lindo e emocionante. Acredito nessa sua explicação, que o perdão nesse caso é algo sobrenatural, divino. É a manifestação do espírito santo de Deus em seu coração e em sua mente, já tão sofridos e magoados, que merecem paz.
    É como está escrito em Filipenses 4:6-7: “Não estejais ansiosos de coisa alguma, mas em tudo, por oração e súplica, junto com agradecimentos, fazei conhecer as vossas petições a Deus; e a paz de Deus, que excede todo pensamento, guardará os vossos corações e as vossas faculdades mentais por meio de Cristo Jesus.”

    Não diria que é lindo, pois a saudade dói demais, mas é edificante, pois a paz substitui a depressão e o ódio. Com certeza, estou convicta de que esta “obra” não é minha. Sou apenas humana, e perdoar, é algo divino.
    beijo, menina

  4. Lord Broken Pottery

    Denise,
    Chego aqui via Valter, um de meus gurus. Emocionei-me com seu texto. Não tenho religião. Acredito apenas na grandeza do homem, na inteligência, na capacidade que temos de nos diferenciar para melhor. Meu pai, certa vez, cobrou-me felicidade. Disse-me, com sabedoria que hoje entendo, que a maior obrigação que temos na vida é a de tentar sermos felizes. O ódio, sem dúvida, não traz felicidade. Seu perdão, tenho certeza, abrandou a dor. Perdoar é crescer, ser maior, diferenciar-se. Do meu ponto de vista por tornar-nos mais humanos, no que tem a humanidade de maior.
    Sinto-me honrado em conhecê-la.

    Obrigada, Lord, é bom conhecer mais um amigo do Valter. Seja bem-vindo! Mas, como disse, não se trata de religião, mas de fé. Eu, confesso, que não teria esta capacidade , por isso , julgo ser alvo de uma dádiva divina. Vou lá conhecer seu blog.
    abraço, garoto

  5. Yvonne

    Oi querida amiga, voltei à blogosfera. Denise, estou lendo apenas o último post de cada blog que estou visitando. Ainda bem que li este seu que foi uma grande lição de vida para mim. Querida, querendo ou não, você é uma pessoa iluminada que deveria servir de exemplo para toda a humanidade. Sim, sei que tem muita gente por aí que também serve de modelo, mas você está em um patamar acima de muita gente. Te amo. Beijocas

    Que bom tê-la de volta! Vou correndo ver seu cantinho!
    beijo, menina!!!!

  6. marli

    denise achei o seu blog,mais não acredito seja por acaso,estou sempre a procura de alimento espiritual e creio q meus mentores me trouxeram até você,tenho sofrido muito com os casos de mães q perderam seus filhos nesse mês de fevereiro,senti a dor como se fosse um filho meu,e fiquei com muita revolta em relação a vida,e esse seu depoimento me fez repensar muitas coisas,como deus é bom q em meio a tanta desgraça nos coloca tbm a consolação e nos presenteia com alguém iluminado como vc,com essa grandeza dàlma falando de perdão e amor depois de ter passado por uma situação de “perda”,esse seu depoimento me lembra maria mãe de jesus quando chorava pelo filho e ele lhe disse:mulher não chores por mim,esses,mostrando as pessoas à volta, são teus filhos e filhas,porque eu vou para a casa do pai. Que exemplo de perdão e amor ao próximo,carregando a própria cruz e ainda ombreando a do próximo, como gostaria q todas as ,mães q perderam seus filhos assassinados lessem esse depoimento,precisamos de mais pessoas como você q fazem a diferença,e que a exemplo de jesus perdoam todo o mal,e não buscam o olho por olho dente por dente das civilizações barbaras,acreditando q atravéz do próprio exemplo de bondade é q a terra vai se transformar num lugar de fraternidade e paz q estamos esperando.
    um grande beijo pra vc e que Deus te conserve sempre assim!!

    Obrigada pela visita, seja bem-vinda! Volte quando quiser. Que Deus nos ajude a sermos pessoas melhores e não reprodutoras da violência que tanto detestamos.
    beijo, menina

  7. cristiane

    denise, estou a procura de depoimentos assim para ver se minha mãe volte a viver. Perdi meu irmao em 27/05/2006 por encefalite herpetica. Jovem, 25 anos, fazia rapel, caminhada, gostava da natureza. Em 4 dias adoeceu, internamos, 12 dias em coma e ele se foi. Desde então sofremos com a dor, a saudade. Desesperamos quando pensamos que não o temos mais conosco. Desculpe pelo desabafo, estou a procura de algo que nos ajude a viver.

    Cristiane, mandei um email pra você! Vai lá!
    beijo,menina

  8. DELMA LUCIA

    perdir 1 filho em 05/07/06 d 1 dor d kbça. repentina aos 13 anos.M/flho era musico nato, tocava varios instrumentos. desde então perdir a vontade d viver e a fé em tdo, inclusive em DEUS. + parabens em demonstar coragem p/continuar vivendo ok!

    Delma, minha querida, também senti a mesma coisa que você: vontade de não viver mais e questionei minha fé em Deus. Mas, em meu desespero, tenho pedido graça a Ele, e forças para lutar. Deus me deu uma netinha linda, uma princesinha que, na época, tinha apenas 6 meses! Era a razão que eu tinha para viver e não me entregar. Não é fácil, é uma luta diária para não me entregar. Minha fé em Deus só aumenta, pois Ele tem seus desígnios, os quais não compreendo, mas preciso de força pra lutar, por minha netinha. Não demonstro força, eu a recebo de Deus, não tenho dúvidas de que esta força não é minha. Hoje mesmo, eu perguntava a Ele por que permitiu tanto sofrimento. Como pode ver, Ele não me responde, apenas envia conforto pra meu coração. Quero manter contato com você por email, ok.
    beijo, menina!

  9. margareth

    Denise,que bom que te encontrei perdi meu filho no dia 21/06/07 qdo ele saía p/ o trabalho com sua moto que ele tanto sonhou conquistar dois garotos de 17 anos roubaram e assassinaram meu filho sem dó nem piedade.O que me sustenta é a fé de que todas as coisa contribuem p/ o bem dos que amam a Deus.
    Acho que o perdão p/eles somente o Pai poderá dar,sinto pena da mãe deles , mas sinto uma saudade tão gde do meu filho que me consome a cada dia .Sei que só Jesus pode me curar .Mas gostaria de saber se algum dia conseguirei ser feliz novamente.Beijos que Deus te abençoe e te guarde.

    Querida, mandei um email pra você! Fica com Deus.
    beijo,menina

  10. Carlos Fran

    Olá!
    Gostaria de saber se você tem alguma informação do “Roberto Carlos, scj” ???
    Ficarei muito grato se tiver alguma informação sobre o mesmo que possa me passa!
    Abraço!

    PS: Parabéns pelo Blog! Blogurinha.. rs rs
    Ah, peguei o desenho no Google, deste site. Não o conheço.
    abraço, garoto

  11. Um sentido para viver | Sturm und drang!

    […] recebi um comentário de uma mãe que perdeu seu filho e não sente mais vontade de viver; perdeu a fé em tudo , e até […]

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