Mãe. Só tem uma? Há quem não tenha nenhuma!

Trabalhei um texto, com meus alunos do Projeto de Jovens e Adultos, extraído de uma revista que recebemos na escola, cujo enredo adaptei ao objetivo da aula, que era levá-los a refletir sobre a importância de ser ou de ter uma mãe presente na educação do filho adolescente.

A leitura do texto adaptado e os comentários sobre ele correram naturalmente, sem nenhuma anormalidade (assim pensava eu). Eles opinaram sobre o que, segundo eles, seria o ideal no exercício da maternidade. Falaram sobre a mãe rigorosa, sobre a liberal, a carinhosa, a displicente, de tal maneira que eu imaginava que tipo de experiências haviam tido com suas progenitoras.

Mas, no momento em que pedi que escrevessem sobre as próprias experiências com suas mães, percebi uma resistência por parte deles, a maioria adultos e alguns adolescentes e jovens. A princípio, julguei que tal resistência fosse devido às dificuldades de elaboração de um texto com as implicações gramaticais que a escrita exige. Convenci-os a escrever, sem se preocupar com a dona Norma (é assim que chamo a norma gramatical) e apenas deixassem fluir seus pensamentos e sentimentos.

Então, veio a surpresa: a maioria esmagadora dos alunos não têm mãe viva, pois a perderam quando ainda eram bem pequenos, e um outro grupo bem significativo jamais conhecera a mãe! As histórias fluíram aos borbotões, como se uma torneira sentimental houvesse sido aberta e eles puderam, então, extravasar tudo o que guardavam durante anos.

Fiquei assustada e ao mesmo tempo muito constrangida por ter suscitado um assunto tão delicado. Frases como: “minha mãe me abandonou quando eu nasci“; “minha mãe morreu quando eu tinha nove anos“; minha madrasta nunca fez o papel de mãe“; e outras do gênero me chocaram. Eu que pensara que nada mais pudesse me abater nesta vida, fiquei emocionada. E o choque maior veio com esta frase: “ela teve cinco filhos e deu três!” Tais declarações me fizeram refletir o quanto o papel da mãe é importante na vida de um ser humano e como aqueles adultos ainda se ressentiam da falta dela.

Os pouquíssimos alunos que ainda têm a dádiva de conviver com sua mãe, falaram dela com um orgulho tamanho que me comoveu. E fiquei a imaginar quantos de nós deixamos de dar o devido valor a esta figura tão importante na vida de um ser humano. A presença ou a falta dela fica marcada para sempre na mente e no coração. Por mais que uma avó ou madrasta tentem fazer o melhor (o que nem sempre acontece), fica uma lacuna que eles sabem que ninguém jamais preencherá. Serão eternamente órfãos de um amor que sequer conheceram.

Há uma frase que diz: “Mãe. Só tem uma.” E eu acrescento: “Há quem não tenha ou jamais teve nenhuma!”

Imagem: daqui

[tags]mãe, filhos, maternidade, madrasta, avós, órfãos[/tags]

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5 comentários para “Mãe. Só tem uma? Há quem não tenha nenhuma!”

  1. Mario

    Denise, que reflexão mais oportuna. Realmente. Você me levou a considerar muitas outras coisas além do tema deste post. Quantas vezes deixamos de dar valor ao que temos, quantas vezes lutamos por coisas das quais nem precisamos de verdade, quantas vezes testemunhamos a vida passar por nós e dela nem bem participamos. Coisas assim.
    Muito me emocionou o seu post sobre esta orfandade não tão exposta assim e que você descobriu sem querer. Valeu o alerta. Excelente alerta.

  2. Grace Olsson

    AMIGA, VOU ALI E JÁ VOLTO. PRECISO REFLETIR SOBRE O TEXTO.
    PARABÉNS. BJS E DIAS FELIZES

  3. valter ferraz

    DE,
    está vendo como os meus personagens são reais? Eles vêm desse mundo aí. Filhos sem mães; mães sem filhos e por aí vai.
    Falar nisso, se tiver tempo leia o texto da Janaína Amado que faz parte do meu post de hoje. Vai nessa direção, vai.
    Beijo, menina

  4. Cláudio Costa

    Boa pegada este seu post, Denise. Há duas grandes idealizações (fantasias?) que nos habitam: primeiro, a idéia de que existe “a Mãe” – pessoa jurídica dotada de todas as qualidades possíveis, que padece no paraíso, etc.; segundo, a idéia de que existe “a Criança” – “criança feliz, feliz a brincar”…. “ai que saudades que eu tenho”… a infância idealizada é o maior obstáculo à aceitação e cuidado para com a criança real. Paro por aqui, pois as associações vêm aos borbotões – desculpe a pobre rima!

  5. Yvonne

    Denise, também fiquei tocada com as reações dos alunos. Bom, você já teve oportunidade de saber como eu sou como mãe e avó. Da mesma forma, também conheço você nesse sentido. Para nós é inconcebível que uma mulher que tenha filhos não consiga ser mãe.
    Beijocas

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