Lição de amor…

Hoje tive a triste notícia de que mais um de nossos alunos foi vítima da violência. Ando com minha sensibilidade à flor da pele, e vejo em cada um desses meninos, meu próprio filho. Minha postura, como professora mudou radicalmente, depois que perdi meu menino. E passei a olhar meus alunos, como uma mãe.

E, como tal, sinto necessidade de olhar cada aluno individualmente (como faz uma mãe), para tentar compreendê-los de tal maneira que possa descobrir o que dizer a cada um deles e cuidar dessas “crianças” (meus alunos variam de 12 a 60 anos).

Essas “crianças”, por mais difíceis que sejam, têm o direito de serem amadas. Não um amor falso, soando a piedade, mas sincero e espontâneo. Não é fácil amar os alunos, mas amar os filhos é muito fácil. Como professores, muitas vezes ignoramos, e até marginalizamos alguns alunos. Quantas vezes somos preconceituosos em relação aos alunos pobres, negros ou com histórico de violência?

Observando alguns alunos, durante a aula, percebo que estão olhando para mim, mas, ao mesmo tempo, seus olhos estão olhando além de mim. Pergunto o motivo de tal dispersão e ouço histórias que jamais pensei que alguém pudesse viver.

Como concentrar-me em transmitir conteúdos formais, quando, naquele momento, tudo o que meu aluno precisa é de alguém que possa escutar o que ele tem a dizer? De que lhe serviriam ditongos e tritongos, se há um hiato em sua vida que precisa ser preenchido? Eu não respondo nada. Apenas escuto. E aprendo.

E assim tem sido, nos últimos meses. Depois de uma experiência traumática, deixei muitos hábitos arraigados há anos e mudei minha maneira de olhar a vida e concentrar-me naquilo que realmente interessa: o ser humano.

E, com respeito, afeto, e uma conversa franca, é fácil constatar que esses alunos são, antes de tudo, seres humanos. Crianças, jovens e adultos cheios de sonhos, desejos, anseios e, às vezes, muitos traumas e revoltas, que podem ser transformados em esperança.

Hoje, quando tive a triste notícia de que mais um de nossos alunos fôra vítima da violência, senti como se tivesse perdido novamente meu próprio filho…

imagem : Google

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8 comentários para “Lição de amor…”

  1. aninha-pontes

    Nós temos a chance de crescer e aprender com as pessoas. O ser humano é riquíssimo, agora, eu imagino voce com uma gama tão farta de personalidades diferentes, o quanto tem a aprender.
    Em ambiente assim, de tantas pessoas, de pensamentos tão diferenciados, voce logo começa a perceber, o quanto as pessoas precisam de atenção, precisam que voce os olhe também além deles, mas não com olhos perdidos, mas que os veja além do que estão mostrando.
    É uma carência de afeto e atenção muito grande.
    E, aí é fatal, voce vai mesmo sentir-se mãe de cada um deles, irmã, ou as vezes até filha.
    Isso prova, mais uma vez, o quanto humana voce é.
    Beijos querida.

  2. Luma

    Denise, sinto muito!! Você deve ser igual as professoras “antigas”, aquelas que as mães confiavam e entregavam como que para uma melhor amiga.
    Ficou sabendo da professora que cortou a língua do aluno? Se não me engano na Itália.
    Minha mãe professou muitos anos e em datas especiais, principalmente no seu aniversário, ela não viaja. Só para receber ex-alunos.
    A maior riqueza que levamos dessa vida, são as pessoas que realmente partilhamos afeição.

    *Off-topic: Tentei entrar aqui outro dia, várias vezes e não conseguia. Quando conseguia ler o texto, não conseguia acessar os comentários. Não sei se o problema era aqui ou aí.

    Beijus

  3. Mamy

    Muito triste… como trabalho na Vara de Infância e da Juventude, vejo muitas vidas adolescentes sendo corrompidas pela violência. Horrível… e é muito dificil se controlar pra não tratar a todos como “bandidinhos”.

    Aliás, ontem meu menino de 14 anos disse que falou para o professor de matemática que tinha se confundido e trazido o caderno errado pra aula. O professor respondeu que não esperava outra atitude dele, somente atos irresponsáveis. Ai, e o primeiro bimestre ainda nem chegou no meio! Tudo tão edificante!

  4. Elizabeth

    Oi denise,
    Muito triste você ter perdido mais um filho, mas pense na felicidades de todos os seus alunos que ganharam em você uma nova e extra mãe. Seu filho lá do céu esta com certeza orgulhoso de ter tido uma mãe como você, por te ver “tão mudada na sua maneira de olhar a vida e concentrar-se naquilo que realmente interessa: o ser humano”.
    A morte dele não foi de toda em vão e nós que lemos o seu blog estamos tambem aprendendo um pouquinho todos os dias com você e seu novo jeito de pensar e dedicar amor.
    Beijos Linda

  5. valterferraz

    Denise, passando para deixar o meu abraço.
    Bom finalde semana

  6. Cejunior

    Denise, infelizmente aqui no Rio é violência para qualquer lado que viremos. Está muito difícil viver aqui, esta é a verdade. De um lado autoridades e políticos que só aproveitam a situação para se promover e do outro uma sociedade que acha que só tem direitos e nenhum dever.
    Assim fica difícil e ficamos sempre dando voltas em torno do mesmo tema.
    Fico pensando como pessoas como você, que passou pelo que passou, conseguem forças para continuar lutando.
    Um beijo e um bom fim de semana.

  7. denise

    Pessoal, prometo responder os comentários, mas hoje o dia foi puxado. Estou no osso.
    beijo a todos

  8. denise

    Bem, vamos por partes: Aninha , achei interessante quando disse “precisam que voce os olhe também além deles, mas não com olhos perdidos, mas que os veja além do que estão mostrando.” Esta parte é difícil, dolorosa, pois me sinto impotente, por isso disse que apenas escuto. E faço o que me é possível: dou afeto e atenção. Por enquanto, se não, desmonto também. Ainda estou convalescendo., Sou humana, não é?
    Beijo, menina

    Luma Querida, nem conheço as mães. Eles me parecem tão sozinhos. Não são mais crianças. A maioria é jovem e adulto. Sobre a professora que cortou a língua do aluno, acredito que, nós, professores, precisamos perceber a hora certa de nos afastarmos pra recarregar as forças. Um afastamento pra cuidar da saúde é melhor que trabalhar sobre tensão. Há muitos professores afastados ou readaptados, que surtaram. Por isso eu disse à Aninha, procuro manter o afastamento saudável. Beijo em sua mãe, lembro com carinho de minhas professoras. O tempo era outro. “A maior riqueza que levamos dessa vida, são as pessoas com que realmente partilhamos afeição”, com certeza!
    (Também tive problemas de acesso na net, essa semana. Não sei o que houve. Atrasei a entrega de trabalhos porque o Gmail estava fora de serviço.)
    Beijo, menina

    Mamy triste pra mim é ver que, não só o pessoal da “Justiça”, mas todos os envolvidos diretamente com o trabalho com adolescentes “de risco” não estamos preparado para tratar esses meninos. São estigmatizados como “bandidinhos” irrecuperáveis…
    Sobre o caso de seu menino, é o que eu disse pra Luma. Veja acima. Eu mesma já pedi pra dar um tempo várias vezes. Licença médica é melhor que isso.

    Elizabeth

    Obrigada pelo carinho, mas como eu queria que este aprendizado fosse menos doloroso… Paguei um preço tão alto para “mudar a maneira de olhar a vida e concentrar-me no que realmente interessa: o ser humano”. Não sou eu que dou forças a vocês, pelo contrário, seu acolhimento é que me mostra que nem todo mundo é cruel. Há pessoas que nos amam e nos apóiam. Obrigada a todos vocês!
    Beijo, menina

    ValterBom final de semana pra vocês também!
    abraço, garoto

    Cejunior Sinto isso freqüentemente: “dando voltas em torno do mesmo tema”, mas, se não mantiver a esperança, acabaremos surtando como vimos acima, o caso de professores que reproduzem a violência a que estão expostos. Minha experiência pessoal me fez mais humana, pois, cada aluno meu que morre, vítima de violência, me faz lembrar, o quanto ele é precioso pra alguém: a mãe. A força para continuar lutando, busco em Deus, todos os dias, em oração, muita fé, e em minha Princesinha (netinha de um ano), que merece um mundo melhor. [Falei sobre minha mudança no post “execução e perdão”

    abraço, garoto

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