Inativa trabalhadora

Há cerca de trinta e três anos que sou professora. Até o ano passado, em tempo integral. E há cerca de três anos que penso em mudar de profissão, insatisfeita com o trabalho que faço, nas condições em que ele é realizado.

Berry Hard Work

A possibilidade de pedir aposentaria que, há uma ano era uma tentação e, ao mesmo tempo, uma temeridade, pois , neste país tal condicão se constitui em uma punição em vez de um prêmio, finalmente chegou. Fiz  minha solicitação há  dois meses, consciente de que meus proventos terão uma redução significativa, e que eu terei de continuar trabalhando para compensar a perda. Sim, porque a formiga aqui, trabalhou durante longos 33 outonos, mas o inverno não se mostra tranquilo, como na fábula,  não.

Tenho outro trabalho, em uma instituição privada, pois, na realidade, eu não posso e nem desejo ainda  sair do mercado de trabalho. Entrarei para as estatísticas de “inativos que trabalham”, uma golpista dos cofres públicos,  ou uma “vagabunda“, segundo  nosso ex-presidente , referindo-se aos aposentados jovens ou em perfeitas condições de trabalho que ” se locupletam de um país de pobres e miseráveis’.

Hoje em dia já não me sinto culpada de  engrossar as fileiras de ‘vagabundos’ que  mamam dos cofres públicos (como se eu não tivesse contribuído para eles), e já decidi que  aposento da escola pública este ano. Abro o Diário Oficial todos os dias para consultar se meu pedido foi deferido.

Estou cansada e não acredito mais em minha capacidade de tranformar nada através do magistério. Apenas minha dedicação e carinho não são suficientes para mudar a realidade daqueles meninos tão carentes de tudo. Deixo meu lugar para as novas meninas que ingressam no magistério. Despreparadas ou não, elas têm  o que estou perdendo: idealismo.

Imagem:  JD Hancock

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8 comentários para “Inativa trabalhadora”

  1. Marco Antonio

    Eu também tinha restrições quanto a aposentadoria, mas não tenho mais, acho sinceramente que o que pagamos de impostos justifica “mamar” nos cofres públicos. Mas confesso que já pensei como o ex presidente citado por você.

  2. denise rangel

    Marco Antonio, No fundo ele tem razão, se temos condições físicas de continuar trabalhando, parece uma contradição aposentar; o que não se comenta é que o salário é tão reduzido que o inativo precisa continuar trabalhando.
    Obrigada pela visita e comentário.
    abraço, garoto

  3. aninha pontes

    O ensino perde.
    Sim, porque alguém com seu idealismo, com seu carinho e amor em ensinar, já não se faz mais.
    Já falamos sobre isso. Professores, hoje, só querem defender seu salário, não ensinam pelo amor de ensinar.
    Quanto à aposentadoria, está certíssima, deve usufruir do mísero dinheiro, que vão lhe devolver.
    Quanto ao Sr. presidente, não pode dizer nada, ele nunca trabalhou, como se deve, e já goza de aposentadorias.
    Beijos meu bem.
    Feliz páscoa, para você, a princesa e Ana Paula.

  4. denise rangel

    Ah, Aninhaquerida, meu idealismo anda meio abalado com tanta violência e injustiça. Mas continuo lecionando no Particular. Obrigada pelo carinho. Uma Páscoa abençoada pra vocês também. Que o Amor maior renasça cada dia do ano no lar de vocês. Beijos no Erickinho, no Valter e nos filhotes todins, hehe.
    beijo, menina

  5. Nanny Costa

    Oi, Denise. Meu marido tb é professor e reclama dessa situação que o ensimo público se encontra. A solução, infelizmente, não é de interesse do governo. Pessoas com pouca informação são mais fáceis de manobrar.

  6. Carlos Emerson Jr.

    O que era para ser uma alegria, você chegar ao final de seu tempo de serviço e ir para casa com salários e condições dignas, virou um pesadêlo…
    Isso é Brasil, infelizmente.
    Um beijão e boa Páscoa.

  7. valter ferraz

    DE,
    existem muitas maneiras de um professor continuar trabalhando a não ser dentro da sala de aula. Voce ainda tem gas suficiente para queimar (embora isso vá fazer mal à camada de ozonio), saberá encontrar uma ocupação. Nessa fase da vida, as coisas acontecem de maneira diferente e vc saberá usufruir da nova situação.
    Quanto ao apedeuta, não pode dizer nada pois o que tem feito até agora vai na direção contrária do que sempre apregoou. Quem chamou os aposentados precoces de vagabundos foi FHC numa frase infeliz (o que não muda nada, pois palavras são navalhas e não voltam ).
    Querida, tenha uma Feliz Páscoa. Sei que no domingo pela manhã vais à igreja, pois reze por este descrente aqui. Sei que Ele costuma atender os que acreditam n’Ele.
    Beijo, menina
    ps: chocolate prás meninas, viu?

  8. Empreendedora ou assalariada? | Sturm und drang!

    […] de parar com tudo e apostar em uma nova profissão. Mudar de emprego. Quatro anos depois, eu continuava no mesmo trabalho, exercendo a mesma carreira, mas já não acreditava mais em minha capacidade de transformar nada […]

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