Eles vão, mas voltam ao ninho.

– É muito ruim ficar sozinha. A solidão é horrível, você vai ver. – dizia-me dona Norma, a vizinha viúva, já idosa, que morava sozinha no apartamento ao lado do meu.

Não me dava conta de que sua predição acontecesse tão rápido. E ela pôde provar sua teoria. Meses depois, sua única filha veio buscá-la para morarem juntas. Não queria morar com a filha. Gostava de ser independente. Mas, tempos depois, ao voltar para visitar-nos, estava irreconhecível: mais corada, havia engordado (só então percebemos o quanto estava magérrima), sorridente e visivelmente feliz.

Fiquei pensando se a solidão realmente fazia mal. No caso dela, parece que sim. Há poucos dias, soube que ela falecera. Penso que partiu feliz, perto da filha e junto aos amigos.

Os filhos são presentes que recebemos de Deus. Pra muita gente, às vezes, é um presente de grego. Mas, na maioria das vezes, trazem alegria e vida dentro da família. Mas os pais não se preparam para o dia em que eles irão embora. E constroem casas enormes, com quintais imensos, um lar do tamanho de seu coração. Do tamanho de seu amor. Mas, um dia, um a um, vão saindo. Indo. E a casa fica vazia. Tudo arrumadinho. Não há mais bagunça para arrumar. O volume de roupa para lavar diminui. Não há pra quem cozinhar. Não há som alto para se mandar abaixar.

Então, um belo dia, chegam os netinhos. Como um bálsamo na ferida aberta. Gritos, sorrisos, bagunça, alegria. Mas eles ficam tão pouco tempo. “Tiau, vovó! Te amo!” E lá se vão, de novo, para suas casas. Novamente o ninho vazio. Talvez seja por isto que há tantos idosos no mercado de trabalho, nas universidades, nas academias, nos cursos de arte, nos salões de dança, nos projetos sociais das igrejas, nas excursões. Precisam se manter ocupados, para não lembrar que agora estão sozinhos. Para não adoecerem de tristeza e solidão. E acabarem em asilos ou clínicas de repouso, esquecidos, na ‘melhor idade’.

Sempre pedi a Deus que me levasse cedo. Que não me deixasse envelhecer. Pensava que a solidão viria com a velhice. Mas, hoje, tão nova ainda, vejo o ninho vazio. Os filhos estão indo embora cada vez mais cedo. Silêncio. Tudo arrumadinho em seu lugar. Cesto de roupa vazio. Fogão brilhando, sem uso. Nenhuma toalha molhada sobre a cama. Nem tênis espalhados pelo chão. Nenhuma voz, nenhuma risada. Ninguém para cobrir durante a madrugada.

De repente, toca a campainha. Gritos eufóricos no corredor. E lá vem ela, pulando e gritando:

_Vó, ti amo!.

E tudo volta a ser como antes:

– Que bagunça! Quanto brinquedo espalhado!

– Quem rasgou esses papéis?

– Vó, quero cômida!

– Que inundação neste banheiro!

– Vó, vem me ‘precurar’ ! Tô ‘iscundida’!

– Essa menina é fogo!


Filhos são presentes que Deus nos dá. Netos, são os filhos que voltam para preencher os dias de ninho vazio. Ninho vazio? Quem disse?

imagem: daqui

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17 comentários para “Eles vão, mas voltam ao ninho.”

  1. Maria Augusta

    Denise, que coisinha mais fofa, imagino a alegria que ela deve trazer para a tua casa. Olha, eu nunca gostei de casa muito arrumada, sempre achei que a bagunça (porém organizada) é sinônimo de atividade, de vida.
    Um grande beijo.

    1. Denise

      é verdade, Augusta, a bagunça é a presença viva, real das pessoas que amamos. Com certeza,minha princesinha só me traz alegria!
      beijo,menina

  2. claudia lyra

    Minha mãe sempre diz que é melhor ter netos do que ter filhos. Talvez seja mesmo. E sua princesinha tá muitíssimo fofa, parabéns!!

    1. Denise

      Pode acreditar: é infinitamente melhor! Não dá para explicar, só vivendo.
      beijo, menina

  3. Alline

    Mas ela tá enorme, Denise…fofíssima.
    Beijos e curta a bagunça aí!

    1. Denise

      É, Alline, o tempo voa, e a gente tem de aproveitar bem estes momentos.
      beijo, menina

  4. Adelino

    Puxa, Denise, assim eu vou parar de vir aqui te ler. Eu me emociono a cada coisa bonita que escreve. Coisas tão verdadeiras, sensíveis, essa dos pais que vão ficando sozinhos é demais. Com licença, mas vou encaminhar este post para algumas pessoas.
    O que eu observo, Denise, é que as saudades de pessoas queridas que se afastaram por um outro motivo, vêm mais fortes nos objetos mais simples que nos ligaram a elas. Uma coleção de selos, um crochet inacabado, uma palavra cruzada não terminada, a sua “pasta” nos “Documentos” do computador.
    Ok, tudo bem.
    Beijos

    1. Denise

      Nem pense em me abandonar, hehe. Tens razão, até os que se foram continuam em nossos porta-retratos, na pasta do pc, etc. É assim mesmo.
      Mas a presença mais forte é dentro da gente,concorda?
      abraço, garoto

  5. Lino

    Denise:
    Belo post. Filhos, realmente, são um presente. Netos, não sei, pois ainda não os tenho, mas vejo amigos e colegas embevecidos com os deles. Assim, sou levado a concordar com você.

    1. Denise

      Seus amigos estão certíssimos. E algo inexplicável. Um prêmio divino, eu diria.
      abraço, garoto

  6. aninha pontes

    Pois é minha amiga.
    É exatamente assim. Ninho vazio, nenhum barulho, nenhuma bagunça de brinquedos espalhados. Mas, felizmente o criador sente que não merecemos esta solidão, e nos dá de presente algo de muito melhor. Algo que nem sonhávamos existisse. Os netos.
    E esta palavra doce: Vó, Vô, repetida milhares de vezes durante um dia de 24hs, é o que nos faz sentirmos vivos.
    Entendo e vivo cada palavra, cada momento que você aqui falou.
    Beijos vovò querida.
    Nós te amamos.

  7. lord broken-pottery

    Denise,
    A princesinha está cada vez mais linda.
    O assunto solidão me agrada. Ouço sempre, muito chateado, as queixas de minha mãe que se sente só. Não sei como. Mora no mesmo quarteirão que minha irmã, tem uma empregada que trabalha com ela há mais de vinte anos, já é da família, recebe sempre as netas que não saem de lá. Tem carro, dirige, pouco pára em casa. Onde está a solidão. Cheguei à conclusão de que solidão é um sentimento interior, que mais tem a ver com a imaginação do que com a realidade. Você pode, e a imagem é comum, estar só no meio da multidão. Particularmente adoro o silêncio e ficar sozinho. Tenho em mim mesmo a melhor companhia que posso ter. Considero isso uma dádiva.
    Grande beijo

  8. valter ferraz

    Denise, por mim seria só avô. É ótimo. E sai bem mais barato. Tem mais gente prá ajudar a criar. E a gente tem mais experiência, pelos quilômetros rodados. Não tô certo?
    Beijo, menina

  9. denise

    É, Aninha e Valter, vocês sabem das coisas… quanto à experiência, não sei não. Dizem que os avós estragam os netos, he he. beijo, queridos.
    Ricardo, também gosto da solidão. Sinto-me bem assim. Mas sua mãe se refere à solidão de filhos, de ninho, é assim que acontece, e é natural.
    abraço, garoto

  10. Luma

    Aí que vontade que deu ser avó!! 🙂 Também não quero envelhecer doente, solitária sem ter com quem dividir minhas reumatoses. Prefiro morrer!! Mas semeamos o nosso futuro e espero que até lá ele me renda frutos. As beneses da vida, a Princesinha é um exemplo!! 🙂 Beijus

    Luma, creio que ninguém quer isto, mas infelizmente, muitos idosos vivem a triste realidade da solidão e abandono. Deus foi bom para mim, e tenho aprendido a viver o presente e entregar o futuro a Ele.
    beijo, menina

  11. Meu Google Reader (30/01 - 10/02) | 30 & Alguns

    […] das cinzas Dinheiro traz felicidade – Blog do Becher Mulher solteira procura??? – Chá de Sumiço Eles vão, mas voltam ao ninho. – Sturm und drang Em quem podemos acreditar? – Nossa Via O pecado mortal dos fumantes – Na Minha […]

  12. elena

    Oi Denise,
    Ainda nao to passando po esse sindrome do ninho vazio nao. O filho se foi, mas a gente conversa muito por telefone. a filha mora ha 15 minutos daqui e sempre nos vemos. Marido trabalha o dia todo, mas volta no final da tarde. E eu to ocupada sempre aqui em casa, nao dando tempo pra pensar em solidao. Os netinhos tao demorando muito pr chegar…mas acho que em 2 ou 3 anos vao aparecer.
    Bjos proce.
    me

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