Carinho contra violência

Dom Quixote, por Picasso

Atualizando

Os comentários estão me instigando a continuar este papo. Então, continuarei a falar sobre o assunto em um próximo post, amanhã ou depois. Enquanto isso, podemos continuar a conversa nos comentários.

A notícia da morte de um professor, no Rio de Janeiro, supostamente espancado por alunos, provocou uma discussão hoje, no centro de estudos dos professores. E percebemos que estamos à mercê dessa dura realidade: violência gera violência; carinho e acolhimento resulta em reconhecimento.

Pelo menos é o que temos percebido com nossos alunos que, no início do ano letivo, chegam “cheios de marra” e, aos poucos, reagem a nossa acolhida afetuosa com reciprocidade. Eles demonstram uma mudança de atitude interessante. Para mim, é muito natural tratá-los com carinho. Esta sinceridade é percebida por eles e, embora muitos tenham histórico de violência, mudam o comportamento em relação a nós professores.

A maior dificuldade encontrada em sala de aula está relacionada à necessidade que os alunos têm de serem ouvidos, respeitados em suas idéias, e quando isto não acontece, usam o método que conhecem, a agressividade, para serem notados e assim, conseguirem a atenção do professor.

Já nem me importo mais se aprendem os conteúdos, desde que a auto-estima deles esteja sendo cada vez mais estimulada. O pessimismo e a imagem negativa que fazem de si mesmos, aos poucos vai mudando ao perceberem que seu sucesso é reconhecido.

Não acredito que a escola tenha a solução para o problema da violência, mas creio que ela pode ser um referencial de acolhida, de respeito aos valores e às virtudes; um espaço em que o carinho e a afetividade neutralizem a violência e a desesperança que vejo refletida em seus olhares.

– Oi, meus amores! Tudo bem? Meu querido, tá chegando agora, por quê?

– Tava trabalhando, fessora…

– Ô minha linda, não está entendendo? Vem cá que eu a ajudo.

– Vamos lá, olha pra mim, garoto!…

Às vezes sinto-me tal qual Quixote a combater moinhos de vento… Uma luta inútil? Não importa. Necessária, eu diria… Continuarei, com impetuosidade e paixão: “sturm und drang“!

 

Um Sonho Impossível

 

Chico Buarque & Ruy Guerra

Sonhar

mais um sonho impossível,

lutar, quando é fácil ceder,

vencer, o inimigo invencível,

negar, quando a regra é vender.

Sofrer,

a tortura implacável,

romper, a incabível prisão,

voar, no limite improvável,

tocar o inacessível chão.

É minha lei,

é minha questão,

virar esse mundo,

cravar esse chão.

Não me importa saber

se é terrível demais,

quantas guerras terei de vencer

por um pouco de paz.

E amanhã,

se esse chão que eu beijei

for meu leito e perdão,

vou saber que valeu

delirar e morrer de paixão.

E assim, seja lá como for,

vai ter fim a infinita aflição

e o mundo vai ver

uma flor brotar

do impossível chão.

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11 comentários para “Carinho contra violência”

  1. Maria Elisa Guimaraes

    Denise , minha linda:
    Há dias vinha procuranso um texto bem Surm und drang ára vpocê.
    Mas, agora, é coincidência demais.
    Ia escrever sobre o Quixote, ou ponçar alguma coisa dele.
    E eis que vc a descobre num belo fragmento do poeta Hereberto Heldor, estupendo.. e eu vindo aqui encontro Quixote.
    E falamos da dor e da vontade de não deixar as coisa permenecerem.

    E encontri esse lindo techo de uma carta de Quixote para Dulcinea. É em primeira mão. Será transformado em post, assim que eu me aquietar dessa gripe:
    =.=-=-=-=-=-=-=-=-
    “El Caballero de la Triste Figura”
    CARTA DE DON QUIJOTE A DULCINEA DEL TOBOSO

    SOBERANA Y ALTA SEÑORA

    El ferido de punta de ausencia, y el llagado de las telas del corazón, dulcísima Dulcinea del Toboso, te envía la salud que él no tiene. Si tu fermosura me desprecia, si tu valor no es en mi pro, si tus desdenes son en mi afincamiento, maguer que yo sea asaz de sufrido, mal podré sostenerme en esta cuita, que además de ser fuerte es muy duradera. Mi buen escudero Sancho te dará entera relación, oh bella ingrata, amada enemiga mía, del modo que por tu causa quedo: si gustares de acorrerme, tuyo soy; y si no, haz lo que te viniere en gusto, que con acabar mi vida habré satisfecho a tu crueldad y a mi deseo.

    Tuyo hasta la muerte”

    =====
    Farei isso assim que possa, bem bonito y hermoso, como hermosa és.
    Um grande beijo dessa tua Amiga, quase companheira.
    Meg

    Meg, tomara que fiques boa logo. A gripe deixa a gente acabada. Obrigada pela carta. Bem passional o nosso Quixote! Aguardo o post que farás. Tenho certeza que será belo.
    beijo, menina

  2. aninha-pontes

    Denise minha querida,é de pessoas como você que eles precisam, não digo nem dos mestres, mas da pessoa mesmo.
    Como esperar doçura de um coração que só encontra pedras e espinhos?
    Mas o amor desarma, ele derruba qualquer argumento.
    Não há como responder com ódio, uma ação de puro amor. E é isso que voce tem feito com eles e por eles.
    Vá em frente!
    És iluminda, está no caminho certo.
    Beijos querida.

    Eu só quero que eles entendam que nem tudo é violência. Tenho um aluno que chegou no ano passado, muito agressivo e de difícil convivência. Bati de frente com ele várias vezes. Depois que a vida me deu uma rasteira, mudei meu modo de ver a violência e os “violentos” e passei a tratá-lo, e aos outros também, com mais humanidade, tolerência, carinho. No fim do ano, durante as comemorações, esse mesmo aluno, na hora das fotos, me abraça e pede pra tirar a foto ao meu lado. Precisa dizer mais.
    beijo, menina

  3. valter ferraz

    Denise, se o Boka e o Guguinha tivessem te conhecido, talvez não fossem personagens de minhas estórias.
    Mas fazer o quê? todos temos noso karma, o deles matar, roubar e morrer, o teu ensinar a viver através do amor, da compreensão e do carinho e o meu talvez seja só o de contar aos outros o que eu vejo e escuto.
    Um beijo grande para você

    Não sei ,não, Valter. Como falei pro Afonso, não tenho soluçoes pra violência, apenas aponto um caminho, mas muitos caíram nestes anos todos. Fiz um post esses dias sobre mais um de meus alunos que tombaram vítimas da violência em que estão diretamente envolvidos. Acho que a escolha eles fazem, as oportunidades é que são muito desiguais.
    abraço, garoto

  4. D. Afonso XX o Chato

    Não posso falar, pois sou de um tempo em que se chamava professor de “senhor” (ou senhora). A permissividade também é culpa das “tias” e das “fessoras” que acham isso “bonitinho”. E dos pais. Sim, sempre deles, pois não educam os filhos para tratarem os mais velhos, os professores, os estranhos, com “senhoria”. Diminuir a “distância” entre aluno e professor eliminou o RESPEITO, tão necessário numa relação, seja ela qual for. Outro grande culpado é o cursinho. Na sua ânsia performática, os professores de cursinhos transformaram a figura do professsor na de um amiguinho de classe. E com amiguinhos fazemos qualquer coisa. A solução está na própria categoria: um movimento nacional que revitalize o respeito em sala de aula. Mas parece que essa categoria é mais uma desunida, que só se junta para pedir aumento de salário. Pra quem não podia falar… hehehe bjs

    Afonso, vivo as duas realidades: alunos que têm família, casa, educação, valores, carinho, atenção, têm dinheiro, computador, bens materiais e emocionais; e tenho também, alunos que sequer conhecem os pais, vivem em favelas, desprovidos de bens materiais e afetivos, muitos reféns do movimento, convivendo com toda sorte de adversidade e violência, das quais são vítimas e reprodutores. É deste último grupo que falo no post, porque, falar sobre o problema é uma coisa, e conviver com eles é outra. Já fui muito dura, exigente, “bati de frente” muitas vezes, com alunos violentos, e nunca tive nenhum resultado positivo. A vida me ensinou que o acolhimento e o respeito independem de ser tratada por senhora ou outra convenção social. Hoje, meus alunos me ouvem. Me respeitam. E eu olho pra eles e sinto esse afeto de que lhe falei. Teoria é uma coisa. Prática é outra. Não estou apontando soluções, pois não acredito que ela seja fácil de se encontrar. Apenas luto com meus moinhos de vento. A truculência que a sociedade quer reproduzir representa, pra mim, igualar-se ao nível medieval de bárbaros adeptos do olho por olho , dente por dente.
    abraço, garoto

  5. Jan

    Para mim o carinho e o amor são a base de tudo de bom que pode haver nesta vida, combatem não só a violência, mas todo tipo de mal, isso Jesus já nós ensinou muito bem, né amiga?! Olha obrigada por me citar lá no blog sobre seus vícios de blogar e comer chocolate…sabe que eu também sofro com esses vícios ;)?. Um cheiro nesse coração lindo.

    São hábitos deliciosos que nos fazem mais bem do que mal, né. Vício é algo pernicioso que destrói a mente e a alma e leva o corpo pro inferno.
    Citar você é um prazer. Você é uma alegria só, Koukla.
    beijo, menina

  6. Lou Salomé

    Olá, Denise! Sabe, Freud dizia que educar, assim como psicanalizar/curar e governar, são três profissões impossíveis. Não porque ele quisesse desvalorizar essas profissões, ao contrário. Ele diz que para elas era preciso arte. Acho que a arte a que se referia é a de conhecer o universo do outro, se abrir para esse universo, escutar, mergulhar nele. Pelo seu texto, fica claro que é isso que estão fazendo no centro de estudos. Eu me lembro até hoje dos professores carinhosos que tive na infância e ainda me sinto às vezes em dívida com eles. Dos outros, não lembro, não… Beijos

    Lou, que bom vê-la por aqui! É verdade, nem todos os professores têm a mesma visão. Acredito que meu colega deve ter tido uma experiência bem ruim com esses meninos. Carinho e atenção, no meu caso, já até me livrou de ser assaltada, pelo simples fato de eu dizer para aquele menino “doidão” que ele era meu aluno. Me pediu desculpas, devolveu-me as chaves do carro e me acompanhou até a porta de onde eu ia…
    beijo,menina

  7. lord broken pottery

    Denise,
    Gostar de gente é fundamental para que se possa ensinar. Percebo o amor que você tem pelos seus alunos. Nada é mais importante.
    Beijo

    “O amor cobre todas as transgressões e o ódio excita contendas”. Se não aprenderem Português, pelo menos aprendem que há uma esperança se fizer a escolha certa.
    abraço, garoto

  8. aninha-pontes

    Denise, nos ví agora sentados em uma conversa sem fim, teríamos tanto assunto que uma noite seria pouco.
    Sim porque o Lord, e o Afonso já me mostraram que podemos ter um bom papo.
    Na verdade, eu concordo com o que o Afonso disse sobre respeito, o exemplo de tratamento de “Senhor e Senhora”,é só um exemplo.
    O que falta, o que está cada dia mais escasso é o respeito, parece não tem mais importância, que isso é coisa do passado.
    Você é respeitada por eles, porque acima de tudo voce os respeita, vc respeita a condição miserável de vida que eles têm. O amor que vc dá à eles, volta prá vc em forma de amor.
    sabemos que muitas vezes a coisa pode até fugir do controle, e ter um percalço qualquer, mas será muito mais difícil. E olha estou dizendo isso, até com um certo conhecimento. O que o Valter está contando nos posts dele, é real, vivemos tudo isso.
    Muitos garotos que estudavam na mesma sala dos meus filhos, cresceram ali, na nossa porta, brincavam juntos, já morreram, ou estão enfurnados em celas nojentas de um presídio qualquer.
    Sempre moramos no meio deles, felizmente conseguimos fazer com nossos filhos separassem as coisas, e ficasse apenas como expectador. Foi fácil? Claro que não, mas os nossos filhos tinham o que quase todos eles não tinha: Amor e respeito.
    Bom, vamos deixar isso prá uma roda de conversa né?
    Beijos

    É, Aninha, mas mesmo assim, com amor e respeito, muitos fazem escolhas erradas. Ou por buscar fugir de algo que os oprime, pensando que a droga pode aliviá-lo, e acabam viciados, ou por ver no dinheiro rápido a saída para o que a sociedade lhes nega, a oportunidade. Nada pode justificar a violência, mas que precisamos procurar ver neles uma pessoa que está de alguma forma violentada 24 horas por dia, ah, isso é fato.
    beijo, menina

  9. Vivi

    Querida Denise,
    mais uma vez passo aqui nesse blog nota dez.
    Na relação entre professor e aluno, o respeito entre ambos é fundamental.O carinho do professor com o aluno ajuda, sim (e vice-versa). Às vezes eu me surpreendo quebrando um comportamento agressivo e indelicado de um aluno, sendo gentil e carinhosa com ele. Não é fácil…mas eu venho tentando…e a cada dia que consigo algo positivo, é vitória!!!Vivi

    Obrigada, Vivi, mas falta muito pra ser nota dez, e essa nem é minha pretensão, hehe. Não é fácil, eu sei, mas é possível.
    beijo, menina

  10. Maria Elena

    Oi Denise,
    Os tempos atuais sao outros. O mundo mudou e acho que o ensino e a ditatica em geral, deveria tambem muda tambem.. Mas isso é pano pra muitas mangas e enquanto nao chega lá…é bom saber que tem professores iguais voce, pra ajudar essa juventude rebelde e perdida.
    Parabens e continue com o seu trabalho lindo.
    bjos,
    me

    Não sei se estou ajudando no sentido pleno da palavra, apenas, ao mudar o modo de vê-los e tratá-los, percebi reciprocidade por parte deles. Quanto ao ensino, é outro assunto. Refiro-me a mudança de comportamento.
    beijo, menina

  11. Mamy

    Denise, é exatamente isso que percebo no tratamento com os adolescentes infratores que passam lá no trabalho. Os que estão internados no Rio estão revoltados, bichos acuados, coisa feia de se ver… os que ficam internados em Volta Redonda, no CRIAM dirigido por uma pessoa que enxerga humanos a serem respeitados onde todo mundo só vê ameaça para sociedade, têm resgatados sua auto-estima e se recuperam muito mais facilmente. É claro que não são todos que reagem bem a um tratamento respeitoso. Mas quase a totalidade dos meninos submetidos à violência dos “reformatórios” da capital só responde com mais violência. A gente tem mesmo que fazer a nossa parte.

    É o que disse pro Afonso: quem convive com eles diariamente percebe isso. É fato.
    beijo, menina

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