A linguagem na ponta da língua

Conversation

“A linguagem na ponta da língua, tão fácil de falar e de entender. A linguagem na superfície estrelada de letras, sabe lá o que quer dizer? O português são dois; o outro, mistério.” (Carlos Drummond de Andrade. “Esquecer para lembrar”. Rio de Janeiro: José Olympio, 1979.

Como profissional da Língua, é natural que, dependendo do contexto em que ocorre o discurso, tendemos a usar um registro coloquial mais tenso, nos policiando quanto à linguagem, e, em várias ocasiões, nós mesmos nos corrigimos imediatamente, quando falamos “errado” alguma construção considerada proibida pela norma culta.

Há pessoas, no entanto, em nosso círculo social, que estranham quando  dizemos “não a vi hoje”, “encontre-me às seis horas”, “vou ajudá-la”, como se fôssemos pedantes, pernósticos e exibidos em relação ao uso dos pronomes oblíquos. E aceitam naturalmente quando usamos construções coloquiais como “não vi ela hoje” , “me encontre às seis horas” e “vou ajudar ela”.

As gramáticas normativas condenam o uso brasileiro de próclise (pronome oblíquo antes do verbo), e esse uso é ensinado nas aulas de Língua Portuguesa, como sendo proibido na escrita. A próclise não deve ser usada no início de oração ou período, diz a norma. Apesar disso, este uso é generalizado no Brasil, na fala popular e, ainda que com menos frequência, na fala culta.

A Gramática, alicerçada na tradição literária, ainda não se dispôs a fazer concessões a algumas tendências do falar de brasileiros cultos, e não leva em conta as possibilidades estilísticas que os escritores conseguem extrair da colocação de pronomes átonos“.  (Bechara, Evanildo Moderna Gramática Portuguesa, 37ª ed. rev. amp. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004)

Em relação à fala, julgo desnecessário fazer qualquer correção ou observação, quando o interlocutor usar a próclise, devido ao caráter dinâmico da linguagem nas conversações. Dificilmente um emprego de próclise, considerado inadequado pela norma culta, será uma prova de que o falante desconhece as ordens da dona Norma.

Como já disse o poeta, a gramática normativa, bem conhecida do professor, do aluno e do mulato sabido, não tem a preferência nacional quando em situações de comprovada descontração, em que a coloquialidade é mais adequada:

Pronominais

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido

Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

(Oswald de Andrade)

Na linguagem informal falada, ou mesmo na escrita, dependendo do contexto, é comum iniciar-se a oração com pronome oblíquo átono. Pense bem: não é realmente estranho, em uma conversa, alguém dizer “Fala-me qual foi o resultado do jogo.” em vez de “Me fala qual foi o resultado do jogo.”?

A linguagem verbal  tende a ser espontânea e descontraída. Considero desnecessário corrigir alguém, em uma conversa, por um uso coloquial tão comum no Brasil. Salvo em situações que exijam certa formalidade, como ao se dirigir a um grupo em uma palestra ou algo do gênero, o mais importante é a comunicação.

Imagem: Benson Kua via Compfight

 

Gostou do Blog?

O que é RSS?

Assine o Feed RSS ou receba nossos textos por email. É grátis!
Digite seu email:

Leave a Reply

WordPress spam blocked by CleanTalk.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...