Indisciplina: responsabilidade da família ou da escola?

March 15th, 2010 Denise Rangel Posted in Educação e ensino, Vida de Mestra, Vida em sociedade No Comments »

Seguindo o raciocínio do filósofo Paulo Ghiraldelli Jr., ética e moral são coisas distintas. Se desrespeitarmos as regras  impostas para todos, como cidadãos, cometemos uma falta ética.  Por outro lado, se desrespeitarmos as regras que nos são impostas pela família, como indivíduos, cometemos uma falta moral.

Quem é o responsável pela “falta” do aluno?

Se um aluno desrespeita o professor ou os colegas, pode estar cometendo uma falta moral que revela  um comportamento  inadequado, uma falta de modos, ou falta de educação, que lhe foi, ou devia ter sido dada, pela família ou alguém responsável por ele.

Em sala de aula, o professor é autoridade intelectual e moral, e o aluno, ao desrespeitá-lo, agindo como  uma pessoa  “sem modos”, falando um palavrão, respondendo mal,   entrando ou saindo da classe sem pedir licença, está cometendo uma falta moral e deve ser corrigido pela família ou responsável, e não  pela escola, por  sua educação ou  seus modos, como indivíduo.

Entretanto, se um  aluno se nega a  fazer  uma  tarefa,  se recusa a desligar o celular ou  outro aparelho,  “peita” desrespeitosamento o professor,  está violando regras impostas para toda a classe. Neste caso,  ele não reconhece a autoridade intelectual e moral do professor, e isso é uma falta ética, uma vez que as regras são para todos daquela comunidade escolar. A obrigação da escola é dar a punição adequada a fim de que a disciplina se mantenha em um nível desejado para o bom andamento das aulas.

Moral e ética se aprendem

Ensinar a educação moral, os bons costumes, os bons modos, compete à família ou responsável pelo aluno. À escola compete ensinar a educação ética, as regras de conduta em sociedade para o bem de todos. Moral e ética se aprendem, não são espontâneas. Ambas precisam andar juntas para que se exerça com responsabilidade a cidadania. Indivíduos disciplinados são cidadãos honrados.

O que vemos é a transferência, para a escola, da responsabilidade de ensinar a educação moral, aquela que vem “de berço”. Frequentemente, ouve-se, dos pais ou responsáveis, pérolas do tipo: “Não sei mais o que fazer com este menino!”. E dos filhos: “Você não é meu pai, ou minha mãe pra mandar em mim!”.

Como filhos, as crianças e os adolescentes precisam de pais ou responsáveis para ser educados; como alunos,  precisam de professores para ser ensinados. Para viver em sociedade, precisam aprender a conviver segundo a ética, acatando as regras de convivência. Quando um aluno ultrapassa os limites éticos, está  desrespeitando as normas da escola, representada pelo professor.

A culpa é do professor?

E já que é para se apontar um culpado, o professor é o escolhido. Se a classe está indisciplinada, a culpa é sempre dele. Quando alguém perceber que alunos sem educação moral e familiar não estão prontos para receber educação ética, talvez seja tarde demais. Será a falência da família e da escola, pois assim como a moral e a ética,  estas duas instituições precisam caminhar juntas.

Já disse isto e vou repetir: colocar a culpa do fracasso da educação, na escola e no professor é o caminho mais fácil para se lavar as mãos para um problema que é de todos. Posso até estar equivocada, mas esta é a minha percepção da atual situação nas salas de aula brasileiras, e talvez, mundiais. E olha que eu sou uma professora muito bacana. Bacana mesmo! Imagino o que sofrem meus colegas intransigentes…

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Um defunto! Na minha escola, não!

February 28th, 2010 Denise Rangel Posted in Arte e Literatura, Educação e ensino, Projeto de leitura, Vida de Mestra 1 Comment »

Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo.

(Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas)

Quem conhece a obra citada, sabe que Machado de Assis criou um narrador – Brás Cubas, que resolve contar sua vida depois de morto. É a história de um morto que resolveu escrever suas memórias. Assim, já que não pertence mais ao mundo terreno, o narrador situa-se além de nosso julgamento e não está preso a nenhum código moral ou social.Desta forma, pode livremente expor, de forma irônica, os privilégios da elite da sociedade carioca do século XIX. Isto torna-se claro para quem lê a obra.

Entretanto, quem não conhece esta, ou qualquer obra literária, não devia tecer juízos de valor a respeito dela, principalmente quando se trata  de uma obra machadiana. E a situação é mais constrangedora ainda, quando o desconhecedor da obra  é uma pessoa que se intitula educadora e “dona” da instituição de ensino, na qual só se faz o que ela determina. Já imaginaram um dono de clínica, que não seja neurocirurgião determinando que materiais o médico pode usar na cirurgia?

Livro que tem defunto na “minha” escola, não!

Algo semelhante ocorreu comigo. Indiquei, certa vez,  a obra Memórias Póstumas de Bráz Cubas, citada acima, para meus alunos do curso de Literatura.  Uma obra clássica, analisada há décadas em qualquer instituição de ensino, cujo enredo não tem nada de ofensivo, salvo para a elite criticada na obra, se fosse o caso. Tive a infeliz ideia de ilustrar um texto,  que distribuí para a turma, com uma cena do livro em que o defunto aparece deitado sobre uma mesa, cercado de velas. Foi a gota d’água!

A educadora-dona-da-escola recebeu a “denúncia” de alguns pais e veio tomar satisfações. Quando tentei explicar que tratava-se de um a célebre obra de Machado de Assis, cuja narrativa utiliza um autor defunto para  expor problemas de nossa sociedade que existem até hoje, ela não me deixou continuar:

– Eu não quero saber de livro que tem defunto na “minha” escola! Não me interessa se é clássico, se é célebre ou o (palavra “impublicável”)!

Não houve argumento que a convencesse. Ficou claro que ela nunca lera  Machado. Talvez , obra alguma, arrisco-me a julgá-la. E, para manter meu emprego, suspendi o trabalho com  as memórias póstumas  de Brás Cubas, que  nesta hora,  junto com Machado, reviravam-se em suas tumbas, diante de tanta insensibilidade  e ignorância a respeito de um  romance de tanta profundidade e sutileza.

Pais e educadores não foram capazes de perceber a importância de um texto, nada “defunto”,  pelo contrário, vivíssimo. que atualiza, de forma irônica, os processos em que nossa sociedade  foi formada, suas contradições e os desmandos e autoritarismos que ainda hoje estão presentes.

imagem: daqui

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Em férias ou de férias?

December 25th, 2009 Denise Rangel Posted in Dicas de Português, Vida de Mestra No Comments »

É ótimo poder descansar depois de um ano dando aulas ininterruptas, em tempo integral! É maravilhoso repor as energias (ou gastá-las de outro jeito, he he…)!

Após o recesso de Natal e das Festas de Ano Novo,  estaremos oficialmente  em férias. Bem, mesmo assim, não posso deixar de dar uma de professora,  e falar da frase escrita no título! Na verdade, eu estou em férias ou estou de férias?

Tanto faz. Pode-se dizer das duas maneiras: ‘Vou entrar em férias’ ou ‘Vou entrar de férias’. No entanto, se você acrescentar um adjetivo  à palavra  ‘férias ‘, então só se deve usar a preposição em ( coisas da dona Norma*) :

“Os profissionais da Educação entraram em férias coletivas.”

Êta, tenho de parar com essa mania de dar aulas! Pelo menos enquanto estiver de férias, ou em férias merecidas!

*Dona Norma Gramatical Brasileira
Imagem: daqui
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Este adolescente é seu filho!

December 6th, 2009 Denise Rangel Posted in Educação e ensino, Família e Amigos, Vida de Mestra 5 Comments »

adolescente-limites

Todo ano é a mesma história: adolescentes, às vésperas do vestibular, sem média para aprovação, ficam “presos” no colégio, em aulas de apoio para as provas finais, enquanto seus amigos já estão aproveitando as férias. Estes adolescentes decidiram, ao longo do ano, se estudariam ou não. O controle de sua vida escolar esteve em suas mãos o tempo todo.

Indago-me, constantemente, por que muitos pais não acompanham os estudos dos filhos adolescentes, como o faziam, quando eram menores. Definitivamente, eles não são mais as mesmas criancinhas de alguns anos atrás, quando faziam o que o professor dizia, e não questionavam as ordens do pai e da mãe.  No entanto, ainda são filhos e precisam de apoio, auxílio, incentivo, advertência e os limites  necessários para seu desenvolvimento.

Esta questão de aprovação ou reprovação é extremamente delicada pois as práticas avaliativas, atualmente, são incompetentes para diagnosticar o desempenho de um adolescente se todos – alunos, professores e pais – não acompanham juntos os dias letivos o ano inteiro. Muitos pais de alunos adolescentes sequer sabem  em que período do ano acontecem as “provas”, quais são os trabalhos solicitados ao longo do ano e  tampouco qual a média anual de seus filhos.

Sempre acreditei que a  a aprendizagem realmente se concretiza quando o ser humano compreende a utilidade deste aprendizado para sua vida. Só aprendemos aquilo que queremos aprender. Alguns alunos adolescentes questionam a utilidade de minhas aulas. Para eles, conhecer os movimentos literários, seus autores e obras, não serve para outra coisa, a não ser que “cai no vestibular”. E faltam aos compromissos  acadêmicos deliberadamente, senhores que são de sua própria vida escolar.

No entanto, ao se depararem com as provas finais, os adolescentes tentam recuperar, em poucos dias, o que não tiveram o interesse de aprender durante o ano. Inicia-se o corre-corre atrás de professores particulares para compensar a deficiência. Ignoram que as tais aulas só são eficazes se eles próprios se conscientizarem de que poderão reter apenas o essencial. Do contrário, elas serão apenas um aumento no orçamento dos pais.

O professor toma para si a responsabilidade da reprovação, quando esta deveria ser compartilhada entre a escola e a família. Os pais precisam tratar seus adolescentes  como filhos, em vez de abandoná-los à própria sorte, como adultos que ainda não são. Eles querem este controle, embora se rebelem a ele. “O pai moderno é aquele que estabelece limites com fundamentos educacionais.” (Tania Zagury).

Este é um jogo que pais e professores precisam aprender a jogar. Espero ter boas notícias até o final do semestre.

Imagem: daqui

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Você já acordou com “espírito”

October 17th, 2009 Denise Rangel Posted in Família e Amigos, Vida de Mestra 2 Comments »

mau humor

Nesta sexta-feira, um dia após o feriado escolar do dia dos mestres, a frequência dos alunos ao colégio foi baixíssima. Só uns poucos do ensino fundamental compareceram às aulas. No ensino Médio, a adesão ao enforcamento das aulas foi quase total. Quase, pois uma única aluna estava no colégio, a manhã inteira, sem nada fazer, e não queria ser dispensada e voltar para casa.

O motivo? Ela respondeu que preferia ir ao colégio a ficar em casa porque sua avó acordara com “espírito”. E, para fugir do espírito perturbador, ela refugia-se no templo, digo, na escola (vai ver que é por isso que chamam o magistério de sacerdócio). Sem entrar no mérito da questão, sobre paciência e respeito aos mais velhos, confesso que a observação de minha aluna me fez pensar que muitas vezes eu acordo com “espírito”.

Pois bem. Ao chegar à casa de minha filha, contei-lhe esta história de minha aluna. Ela se acabou de rir com o fato de a avó da menina ter acordado com um “espírito”.

Hoje, pela manhã, ao acordar na casa de minha filha (já mudei para meu novo apartamento, mas tive uma recaída e vim dormir com a Princesinha), eu estava,  inexplicavelmente, de péssimo humor. E, minha filha. ao me ver bufando pela casa,  não perdeu tempo e soltou a pérola:

- Acordou com “espírito”, é?

Pronto! Descobrimos a cura para o mau humor: gargalhadas! Não há espírito que resista, hehehe.

Goethe , um dos líderes do movimento literário romântico alemão Sturm und Drang,  já dissera que “tudo o que liberta o nosso espírito sem nos dar o controle de nós próprios é prejudicial”.  A intempestividade deve ser controlada pela paz e pelo controle de nossas emoções.

Fiquei imaginando se valia a pena cultivar o mau humor. Não mesmo, principalmente com a Princesinha por perto.

E você, já acordou com “espírito”?

Imagens:

Mulher
Eu e aPrincesinha

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Professor, necessário ou descartável?

October 14th, 2009 Denise Rangel Posted in Educação e ensino, Rede Ecoblogs, Tecnologia, Vida de Mestra 6 Comments »

Repliee_Q2

Será que nós estamos desenvolvendo a “síndrome de Bournout“, que, de acordo com uma pesquisa realizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) atinge cerca de 25% dos professores? “Não é stress, depressão ou angústia: é pior, pois o professor se transforma num robô, o que é muito grave, porque a educação pressupõe dedicação.

Essa síndrome faz com que o trabalhador perca o sentido de sua relação com o trabalho, de forma que nada mais importa, e qualquer esforço parece inútil, causando uma enorme desmotivação, quando o profissional se depara com a violência que vem atingindo as escolas, tanto públicas quanto particulares. Essa violência, além de atingir os professores, prejudica o desempenho dos alunos.”

Olhando para os alunos, percebo que as dúvidas deles sobre os objetivos das aulas são, exatamente, o porquê de terem de aprender tudo isso. Procuro explicar-lhes, mostrando que há vários métodos para se registrar a história da gente, nos diferentes tipos de Arte, e que eles poderão escolher em suas vidas, o método que mais lhes agradar para conhecer a história universal dos povos, e também para viajar pela aventura humana, e desvendar as questões mais transcendentais sobre o sentido da vida.

E a mim compete apresentar-lhes a Arte literária. Nenhum deles me perguntou ainda por que não são obrigados então, a ter aulas de Música, ou de Pintura, ou de Escultura, ou de Arqueologia, ou de Antropologia, ou de Teatro, por exemplo. Para eles, conhecer os movimentos literários, seus autores e obras, não serve para outra coisa, a não ser que “cai no vestibular”.

Então, penso que, se os alunos perguntam para que serve “esta coisa”, ou por que têm de saber tudo “isso”, é porque minhas aulas não estão demonstrando que eles saibam o tempo todo por que estão estudando Literatura, ou então é porque o conteúdo está sem graça, fora do contexto. O que será que o desinteresse dos alunos está querendo me comunicar? O que querem realmente me dizer com conversas paralelas, brincadeiras, sono (sim, alguns dormem na aula) e agressividade?

Parece-me que não estão direcionando estas atitudes especificamente para mim ou para a matéria que têm de aprender, mas para este ambiente monótono, asfixiante em que se transformou a sala de aula. Talvez preferissem estar em outro lugar, certamente em seus quartos, em jogos de computador, ou em outro ambiente que lhes trouxesse mais vontade de participar das atividades e não querer mais parar.

E nestas horas, sinto minha limitação para fazer as aulas criativas e interessantes, e transcender meus limites. E indago-me:”sou professora para quê?”, se cada um traz dentro de si uma inquietude, uma curiosidade natural para descobrir sua história e meios para obter tal conhecimento (se assim o desejar, é claro)?

Então, concluo que, para os alunos que realmente desejam ampliar sua cultura e saciar sua sede de conhecimento, não é suficiente ficar assistindo a aulas, somente sentados naquelas carteiras. Preciso rever meus métodos. Talvez, nós, professores, já tenhamos sidos descartados e engolidos pela máquina globalizante, diante de uma geração que  tem outros objetivos tão imediatos. Uma professora-robô. Será?

Leia mais sobre síndrome de burnout, aqui e aqui.
Imagem: Robô Repliee Q2
[tags]professor-robô, síndrome de burnout, sala de aula, professor-aluno[/tags]

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Os sofrimentos da jovem Maya (Werther ?)

September 12th, 2009 Denise Rangel Posted in Arte e Literatura, Educação e ensino, Vida de Mestra 3 Comments »

mayawerther

O recesso prolongado por ocasião do surto de gripe suína, obrigou-nos a ministrar algumas aulas extras hoje, pela manhã para repor o período parado. Fui para o trabalho imaginando a recepção nada calorosa de adolescentes retirados da cama, em uma manhã de sábado.

Quando cheguei à sala de aula, o assunto principal era o final da novela Caminho das Índias, de  Glória Perez! Are baba! E, já que os alunos não paravam de tecer comentários apaixonados a respeito das situações que permearam o imaginário de meio mundo ontem, o jeito foi me render e entrar na discussão.

Consegui mudar o rumo da aula (mestra carrasca) para uma análise dos procedimentos, utilizados pela autora , na construção do destino de cada personagem. Foi um debate enriquecedor. E a discussão se estendeu para outros gêneros de obra de ficção; conversamos sobre filmes, livros e afins.

Daí para a leitura de Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, foi mais fácil do que eu imaginara. Falar de um jovem apaixonado, atormentado por seus sentimentos não correspondidos aguçou a curiosidade dos alunos para o meu objetivo principal: dar aula sobre o Romantismo (risadinha sarcástica).

Dar uma aula extra, às sete horas da manhã de sábado, para adolescentes sonolentos, seria um desafio e tanto, sem a interferência de Glória Perez e seus “caminhos”. Atchá!

Imagem: MayaO jovem Werther

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Comunicação ou Dinheiro – Gregor Samsa ou Lady Kate?

August 25th, 2009 Denise Rangel Posted in Dicas de Português, Educação e ensino, Vida de Mestra 2 Comments »

ladykate metamorphose

Em uma de minhas aulas sobre adequação linguística, eu e  meus alunos conversávamos sobre o fato de a  língua ser utilizada como mecanismo de exclusão social. Era uma discussão descontraída, pois tratava-se de uma turma do ensino fundamental e meu objetivo não era dar aula teórica de linguística, e sim, mostrar como pessoas, muitas vezes importantes, são discriminadas por não usar o registro de fala mais adequado à situação ou ao cargo que ocupa.

“- O Lula!” – gritou um deles. E foi difícil voltar ao tema central da aula, depois desta. Houve uma baguncinha básica por alguns minutos, e , para não fugir àquele velho chavão: “a gente ganha pouco, mas se diverte.”

Em outra parte da discussão, um aluno perguntou por que temos de escrever usando a língua culta se, ao falar não a utilizamos. Em seu modo de entender, a língua padrão deveria ser similar a que falamos.  (Quem dera…)

Expliquei-lhe sobre a norma padrão ser aquela utilizada pela elite intelectual e econômica dominante e  comentamos sobre suas implicações políticas e sociais.  Mostrei-lhes que a linguagem é uma forma de comunicação e poder que pode tanto inserir quanto afastar o indivíduo dos grupos considerados social, política e economicamente dominantes.

Agora há pouco, pensando sobre o poder da comunicação, percebo que a barreira social inicia-se pela linguagem. Lembrei-me de Gregor Samsa, personagem de A Metamorfose, de Franz Kafka, que, ao acordar, certa manhã,vê o próprio corpo metamorfoseado em um inseto com “dorso duro e inúmeras patas”, e, desta forma,  percebe-se impossibilitado de se comunicar com sua família.

A partir daí, inicia-se  um processo de isolamento físico, social, emocional, ao ponto de reduzi-lo a um tal grau de insignificância que culmina com sua morte física. A morte social ocorrera antes, no momento em que sua capacidade de se comunicar e se expressar como um ser humano tornou-se impossível. Já não possuía o poder econômico e agora, o poder de se comunicar adequadamente também lhe era negado.

Assim como as pessoas a seu redor não percebiam que havia um homem dentro daquela aparência repugnante do inseto em que se transformara Gregor;  há, na sociedade, uma cegueira proposital dos que se dizem cultos, que os leva a ignorar e humilhar o ser humano que não se comunica fluentemente em sua língua padrão.

Ocorreu-me, também, o quadro de um conhecido programa humorístico em que uma personagem – Lady Kate –   conquista o poder econômico, ostenta jóias, dinheiro e bens materiais. No entanto encontra uma enorme dificuldade para ser aceita no grupo social dominante.

O humor reside no fato de a personagem expressar-se com uma linguagem extremamente rudimentar do ponto de vista linguístico. Não compreende e não se faz compreender, mesmo possuindo muito dinheiro, que pode comprar tudo, menos derrubar a barreira cultural e linguística que a afasta dos socialmente mais favorecidos.

- Tô pagano! – diz ela, ao expulsar do lugar, todos os convidados ilustres, que a rejeitam na alta sociedade , na qual ela procura  se inserir, pois é ela que paga as festas, encontros, desfiles, eventos em que aparece. É hilário, cômico e, infelizmente , trágico. No caso dela, nem dinheiro resolve. “Só lhe falta-lhe o gramur”, kkkk.

Poder de comunicação ou poder econômico – Gregor Samsa ou Lady Kate? Será que dá para ter os dois?

imagem: ladyKateGregor

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