
Em uma de minhas aulas sobre adequação linguística, eu e meus alunos conversávamos sobre o fato de a língua ser utilizada como mecanismo de exclusão social. Era uma discussão descontraída, pois tratava-se de uma turma do ensino fundamental e meu objetivo não era dar aula teórica de linguística, e sim, mostrar como pessoas, muitas vezes importantes, são discriminadas por não usar o registro de fala mais adequado à situação ou ao cargo que ocupa.
“- O Lula!” – gritou um deles. E foi difícil voltar ao tema central da aula, depois desta. Houve uma baguncinha básica por alguns minutos, e , para não fugir àquele velho chavão: “a gente ganha pouco, mas se diverte.”
Em outra parte da discussão, um aluno perguntou por que temos de escrever usando a língua culta se, ao falar não a utilizamos. Em seu modo de entender, a língua padrão deveria ser similar a que falamos. (Quem dera…)
Expliquei-lhe sobre a norma padrão ser aquela utilizada pela elite intelectual e econômica dominante e comentamos sobre suas implicações políticas e sociais. Mostrei-lhes que a linguagem é uma forma de comunicação e poder que pode tanto inserir quanto afastar o indivíduo dos grupos considerados social, política e economicamente dominantes.
Agora há pouco, pensando sobre o poder da comunicação, percebo que a barreira social inicia-se pela linguagem. Lembrei-me de Gregor Samsa, personagem de A Metamorfose, de Franz Kafka, que, ao acordar, certa manhã,vê o próprio corpo metamorfoseado em um inseto com “dorso duro e inúmeras patas”, e, desta forma, percebe-se impossibilitado de se comunicar com sua família.
A partir daí, inicia-se um processo de isolamento físico, social, emocional, ao ponto de reduzi-lo a um tal grau de insignificância que culmina com sua morte física. A morte social ocorrera antes, no momento em que sua capacidade de se comunicar e se expressar como um ser humano tornou-se impossível. Já não possuía o poder econômico e agora, o poder de se comunicar adequadamente também lhe era negado.
Assim como as pessoas a seu redor não percebiam que havia um homem dentro daquela aparência repugnante do inseto em que se transformara Gregor; há, na sociedade, uma cegueira proposital dos que se dizem cultos, que os leva a ignorar e humilhar o ser humano que não se comunica fluentemente em sua língua padrão.
Ocorreu-me, também, o quadro de um conhecido programa humorístico em que uma personagem – Lady Kate – conquista o poder econômico, ostenta jóias, dinheiro e bens materiais. No entanto encontra uma enorme dificuldade para ser aceita no grupo social dominante.
O humor reside no fato de a personagem expressar-se com uma linguagem extremamente rudimentar do ponto de vista linguístico. Não compreende e não se faz compreender, mesmo possuindo muito dinheiro, que pode comprar tudo, menos derrubar a barreira cultural e linguística que a afasta dos socialmente mais favorecidos.
- Tô pagano! – diz ela, ao expulsar do lugar, todos os convidados ilustres, que a rejeitam na alta sociedade , na qual ela procura se inserir, pois é ela que paga as festas, encontros, desfiles, eventos em que aparece. É hilário, cômico e, infelizmente , trágico. No caso dela, nem dinheiro resolve. “Só lhe falta-lhe o gramur”, kkkk.
Poder de comunicação ou poder econômico – Gregor Samsa ou Lady Kate? Será que dá para ter os dois?
imagem: ladyKate ; Gregor