Dizer “não” para as pessoas foi um aprendizado longo e permeado de sentimento de culpa, principalmente se eram pessoas queridas. Mas, enfim, posso dizer que, agora, de fato, sou dona de meu próprio nariz. Aquela história de que “vai pegar mal” ou “fica chato recusar” não me constrangem mais.
Dizer: “não vou a esta festa”, “não quero emprestar o dinheiro”, “não faço este trabalho”, “não convido esta pessoa”, “não vou te levar ao aeroporto”, “não empresto o carro”, etc e tal, é mais simples do que se pensa. Quem tem que ficar constrangido pelo “não” é o autor do pedido inconveniente, e não eu. Chega de fazer o que os outros querem, por ficar com vergonha ou sem jeito de dizer um simples “não quero”.
Digo ’sim”
Abro uma exceção para uma pessoinha que derrete meu coração de pedra: a Princesinha. Desde que ela entrou em minha vida como um bálsamo, quando eu estava prestes a me tornar mãe de anjo, tenho feito esforços extras para vê-la sorrir. Claro que não permito que ponha fogo na casa, nem fure o olho do cachorro, mas, dentro de um contexto coerente, faço para ela , muitas vezes, o que não quero ou não estou com disposição alguma para fazer.
Cozinhar é uma destas coisas que me dou o direito de não fazer. Abro uma exceção para ela. Há coisa mais chata do que cozinhar feijão? Pois é, mas para minha Princesinha, lá vou eu para o fogão preparar feijão, para fazer um mexidinho dos deuses, do jeito que ela gosta.
Mexidinho da Princesinha
Esta é a receita preferida por cozinheiras preguiçosas como eu. Aproveita-se tudo o que tiver nas panelas, mas também pode ser feito com feijão e arroz fresquinhos. Aqui vai o suficiente para uma criança. Se quiser aumentar a receita, coloque a quantidade que cada um deseja comer e manda ver. Quem faz é a minha filha, que eu só sirvo mesmo para cozinhar o feijão.
- Primeiro, esquentar o azeite em uma panela, adicionar 2 ovos e mexer bem, sem deixar os ovos endurecerem muito.
- Juntar 2 colheres de sopa de arroz pronto, uma concha de grãos do feijão cozido, um tomate picadinho e uma porção de salsicha picadinha refogada (que a mãe dela faz porque ainda são carnívoras…). Mexer bem delicadamente.
- Finalmente, misturar um pouco de farinha de mandioca para ligar, acrescentar um pouco de cheiro verde picadinho e sal a gosto.
Depois é só colocar no pratinho e esperar a Princesinha pedir bis. Ela se aproxima de mim e diz: “Vó, tô cum fome. Quero comer a-go-ra!” Então eu pergunto a vocês: dá para dizer “não” a uma fofura destas?
A vida me disse “não”
Sou uma avó diferente das tradicionais. Não conto histórias para dormir, nem canções de ninar. Não faço bolos, nem doces, nem guloseimas. Até minha pipoca é ruim. Só mesmo ela para me fazer pilotar um fogão nesta altura da vida e preparar feijão.
Uma mãe, certa vez, me escreveu dizendo que estava sofrendo a perda do filho e não compreendia como eu podia estar bem. É simples: não sou uma mãe-órfã desnaturada, que sorri e parece feliz. É que eu tive a graça de ser mãe de anjo, mas Deus, em sua misericórdia, me coroou com outra graça: a de ser avó desta linda Princesinha.
A vida me disse “não”; aprendi a dizer “não” para os inconvenientes. Mas digo “sim” para minha Princesinha e para a vida. E “não” para esta dor-de-mãe que não passa…


















