
À época da notícia da execução de Saddam Hussein , escrevi este post por estar extremamente irritada, pois percebi que o ser humano “faz justiça” repetindo o mesmo “erro” do executado. Esta semana, a notícia da barbaridade e desumanidade policial, no Rio, que culminou na morte do coordenador do AfroReggae, minha irritação é compartilhada, creio , que por todos os brasileiros. Se repudiamos as execuções bárbaras, punir com execução não torna quem mata, um executor semelhante?
Violência policial no Brasil
Durante muito tempo tenho me calado, mas agora, pretendo discutir a situação da violência no mundo e particularmente no Rio. Fala-se muito em direitos humanos, mas a realidade mostra julgamentos sumários diariamente, e basta uma frase para se fazer calar qualquer um: “era bandido”. Um policial torna-se, em segundos, juiz, que decreta a pena de morte, e executor da mesma.
Já se provou que a polícia no Brasil mata exageradamente. Mata pelas costas, com tiros na nuca, com muitos tiros, sempre escolhendo partes letais. A maioria das vítimas são adolescentes infratores, sem antecedentes criminais, pobres e negros. A maioria das vítimas estão em áreas estigmatizadas como as favelas, comunidades muitas vezes abandonadas pelo Estado. É clara a discriminação social, cultural, étnica.
Quando se atira pelas costas num adolescente sem antecedentes criminais, que não foi previamente identificado, isto me soa muito parecido com “limpeza social”. Naquele momento ele passa a ser identificado como um “vagabundo”. O próprio policial prefere atirar nas partes letais e não para a imobilização.
A certeza da impunidade dá ao policial garantia de segurança e , consequente insegurança pra seus familiares, que, temendo represálias, calam-se e vêm-se forçados a viver com o estigma de ter um ente querido “vagabundo”, segundo veredicto de um policial, que sequer o identificou.
O índice de punição para os policiais que matam, em execuções sumárias e arbitrárias, é muito baixo. Pelo contrário, o que vejo são elogios a essas “mortes de bandidos”. Policiais que matam não são cuidadosamente investigados nem submetidos a tratamento. E policiais que matam muito, sem controle e tratamento, adquirem seríssimas deformações psíquicas. Mas, quem ousa denunciá-los sem se tornar uma vítima certa e imediata?
Policiais ou carrascos?
Sabe-se que para o desenvolvimento de uma cultura civilizada e humanizada, em um país democrático, nenhuma polícia deveria matar. Nem todos os mortos são bandidos, embora os bandidos também não devam ser executados arbitrária e sumariamente pela polícia. Não temos pena de morte no Brasil, e mesmo que a tivéssemos, deveria haver um julgamento e não uma execução. Como é que a polícia mata e não acontece nada? Ela não é criminosa. Os criminosos é que matam. A polícia não existe para matar, mas para assegurar a justiça e a liberdade às pessoas.
Para a mídia, a polícia sempre declara que houve confronto entre ela e os bandidos e que estes foram mortos. Mas, se observarmos bem, os tiros são dados na nuca, na cabeça, nas costas! Pra mim isto não é confronto entre policiais e bandidos, mas sim uma execução de pessoas que podem ser bandidos ou não, não interessa. A polícia não pode matar!
Os “juízes” do cotidiano
Este é um país democrático! Tal atitude revela o autoritarismo, o abuso de poder e a truculência da polícia que nos protege. Mas ela mata. Matar é diferente de prender. E é apenas isso o que ela deve fazer: prender. Porém, matando, julga sumariamente. E matar nada tem a ver com justiça.
Não escuta, não dá chance para defesa. Sequer identifica a vítima. Não respeita a vida. Quem julga as pessoas criminosas? Os próprios policiais que as executam! E, mesmo que sejam criminosas, teriam de ser mortas? Afinal de contas, existe ou não pena de morte no país?
Infelizmente, ninguém jamais irá saber se elas eram culpadas ou inocentes porque , na maioria dos casos, os familiares dos executados não abrem processo nem exigem seus direitos, por temer represálias. Se a polícia os tivessem prendido, interrogado e principalmente investigado, talvez nós saberíamos a verdade, caso não fosse deturpada, o que também pode ocorrer.
Mães perdoam, mas não esquecem
Não acontece assim, infelizmente. Aqui foi mais um desabafo. Uma denúncia de que uma vida foi desrespeitada e ceifada por aqueles que acreditam que, matando, estão cumprindo seu dever e prestando um grande serviço para o país. E nunca saberei a verdade. Acredito apenas que há uma justiça divina, e que dela ninguém escapará:
“Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos ” Mateus 5.43
Embora, com todo esse sentimento de revolta e injustiça, sinto-me impulsionada a perdoar, a sofrer a ofensa, a aquietar-me e viver confiando na Justiça divina. Se não posso perdoar os responsáveis pela violência de que fomos vítimas, acabo por tornar-me mais culpada do que a pessoa que nos infligiu a ofensa.
Se não posso perdoar, a misericórdia e a graça de Deus para nós serão bloqueadas. Então, quando as coisas começarem a ir mal em nossas vidas, não vamos entender, pois estaremos em desobediência à ordem divina de amar e perdoar os inimigos.
Se eu não perdoar , a pressão de nosso inimigo contra nós continuará nos roubando a paz. Ele se torna o vencedor, conseguindo nos infligir sofrimento permanente; continua sorridente vivendo sua vida, enquanto nós continuamos fermentando nossa raiva, alimentando pensamentos de vingança, e nos tornando capazes de cometer transgressões muito piores do que a que sofremos.
Assim eu perdôo os que me inflingiram tanto sofrimento e, com isso , sinto que meu Pai celestial me conforta, e me faz ver que , toda vez que não dermos atenção às ofensas, e perdoarmos as injustiças que cometeram contra nós,isso nos faz pessoas melhores.
Quando perdoamos como Deus perdoa, (não é assim que oramos:”perdoai nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos que nos têm ofendido?”), Ele nos leva à uma revelação de amor, de tolerância, de justiça e de bênçãos que nunca antes jamais conhecemos.
Agora, estou em paz! “O Senhor mo deu e o Senhor mo tomou; bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1.21)
foto:Mateus Hidalgo