
Assisti às palestras sobre Tecnologia e Educação: uma nova escola para um novo aluno no terceiro Descolagem, que aconteceu na sensacional escola do futuro, NAVE, e ainda não havia feito nenhuma observação aqui. Os palestrantes Paulo Blikstein (professor em Stanford na área de novas tecnologias para educação), Luli Radfahrer (Ph.D. em comunicação digital pela ECA-USP) e Patrícia Konder Lins e Silva (diretora pedagógica da Escola Parque no Rio de Janeiro) debateram sobre a necessidade de se adequar a escola ao aluno contemporâneo que pertence a uma geração que navega pela internet, joga games e está habituada a desempenhar múltiplas tarefas simultaneamente.
Ojeriza à tecnologia
Sinto-me um pouco desconfortável ao perceber que muitos de meus colegas não se interessam por se atualizar em relação a essas inovações e são até agressivos quando toco no assunto com eles. E percebo, com tristeza, que a tecnologia está presente na escola , mas as concepções pedagógicas são influenciadas teoricamente pela pedagogia tradicional e competitiva do mercado de trabalho e do vestibular. E o professor continua, desesperadamente, a transmitir informações que são decoradas por alunos para fazerem provas e exames ao longo de sua vida estudantil. Quando algum projeto é sugerido, vejo que não é valorizado como produção oficial, pois o que conta são as médias que não me provam nada, a não ser a capacidade do aluno para armazenar dados na memória ou copiá-las quando lhes é dada esta possibilidade.
Estou ciente da sobrecarga de trabalho do professor – conseqüência de uma remuneração insuficiente – e da dificuldade para se manter atualizado com cursos de especialização e adequação às novas tecnologias e ao perfil do aluno do século XXI. No entanto, alguns esforços são feitos para suprir esta lacuna, mas não vejo vontade do professor em participar dos cursos de informática educativa oferecidos gratuitamente pela Prefeitura e pelo Estado (eu fiz todos que pude) e nem em aplicá-los em sua prática pedagógica. Quando um dos grupos de alunos, que iria apresentar um projeto de monografia, cujo tema era sobre mídias e educação, um dos professores que deveria assistir à apresentação e avaliar o desempenho dos alunos, passou a pasta para mim dizendo: “toma, que este assunto é com você.” Como se ele estivesse alheio ao mundo globalizado e às informações que os alunos pudessem, de modo bem elementar, trazer à discussão.
Moderno e tradicional combinam?
Há alguns anos que já pesquiso e incorporo as novas tecnologias em meu trabalho, tornando-o mais eficiente e produtivo e, com a vantagem de me relacionar melhor com os alunos. Participo de palestras, congressos, seminários, fóruns de discussão on line sobre tecnologia e educação; cursos à distância de atualização e especialização em minha área e áreas afins. Assisto a documentários, filmes, programas educativos, debates e tudo o mais que meu tempo, disposição e recursos financeiros possam me proporcionar. Não recebo nenhuma remuneração extra ou bolsa de pesquisa para isto, mas entendo que posso ter resultados menos desanimadores, quando meus alunos estão estimulados e eu atualizada.
Entretanto, ainda elaboro meu planejamento utilizando as técnicas e recursos didáticos disponíveis na escola para transmiti-los: ou por exposição oral e quadro branco (ainda), ou por meio de recurso audiovisual (data show, livros, textos, filmes, etc.), pois a seleção de conteúdos e atividades são obrigatoriamente os tradicionais, uma vez que o objetivo da escola é “preparar para a vida” (entenda-se, vestibular e profissionalização). Nas escolas públicas, onde o quadro é mais desesperador, com menos recursos tecnológicos e uma clientela já marginalizada e discriminada, aliados a uma política de aprovação que responsabiliza o professor pelo fracasso do aluno, há muito já se perdeu o foco da importância de uma metodologia específica para o processo de ensino-aprendizagem desses meninos.
Gosto de trabalhar com projetos individuais ou em grupo, usando o computador e as mídias que meus alunos dominam, pois, em minha experiência, percebo que as dificuldades de alguns deles na aprendizagem podem ser facilmente detectadas e, desta maneira, posso rever o processo desenvolvido nas aulas que ministrei e os resultados significativos produzidos por ele. Os alunos que apresentam dificuldades na apropriação dos conhecimentos são estimulados a trabalhar com colegas que possam apoiá-los, e, freqüentemente, solicito que estes alunos participem mais das aulas, oralmente ou em atividades escritas; atribuo-lhes tarefas e responsabilizo-os por seu cumprimento; tento motivá-los para a leitura e procuro sugerir materiais específicos que o ajudem a superar suas dificuldades.
Informatizar ou educar?
Percebo que meus colegas não estão sozinhos nesta rejeição à tecnologia. Nem todos educadores defendem a importância do acesso à informática para o desenvolvimento do aprendizado e a integração dos alunos com o mundo, e não consideram a tecnologia como uma ferramenta importante no ensino. Eles defendem o aprendizado através da observação e experimentação e criticam o uso da informática e o papel da tecnologia na educação. O programa Roda Viva entrevistará *Valdermar Setzer, nesta segunda-feira, falando sobre o tema : “O impacto e a influência dos meios eletrônicos na educação de crianças e jovens”. Segundo ele, a educação precise ser humanizada e não informatizada, e o uso dos meios eletrônicos na educação de crianças e jovens, como a TV, o computador e a Internet prejudicam a imaginação, tiram a liberdade do indivíduo e o condicionam, ao invés de informar e educar.
Vou assistir ao programa e voltamos a falar sobre o assunto.
* Valdermar Setzer é formado em engenharia eletrônica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica, com doutorado na Universidade de São Paulo e professor-titular aposentado do Departamento de Ciência da Computação do Instituto de Matemática e Estatística da USP.
Imagem: laboratório de Informática em uma das escolas em que trabalho.
Technorati : descolagem 3, roda viva, tecnologia e educação