- Para celebrar o 7º ano deste blog, convidei grandes e especiais amigos e amigas, para me honrarem com sua escrita, e encher o blog de alegria e boas ideias! Hoje, quem me emociona com uma de suas deliciosas crônicas é a querida escritora Vivina de Assis! Boa leitura!
Eternidade
Passamos três dias no interior de Minas, minha irmã, meu irmão e eu. Na fazenda onde crescemos, sonhamos, aprendemos, desaprendemos. Vivemos.
Faltou o irmão mais velho, oitenta anos. Justamente o que mora perto, de lá da porteira. Logo depois da árvore torta.
Estava na capital, como dizia nosso pai. Indo a médicos, que ninguém é de ferro. Nem ele, adepto de longas caminhadas e leituras. Guimarães Rosa, de preferência. Nada mais natural. Falam a mesma linguagem, irmanados.
Irmanados, três dias afora e três noites adentro, minha irmã, meu irmão e eu falamos muitas linguagens. Ora a das lembranças, ora a dos sonhos, ora a do espanto. Sempre a da saudade. Nada mais natural. Durante os três dias e três noites, na casa grande, colonial, paredes brancas, janelas azuis, finitas e infinitas imagens iam e vinham, presentes, ausentes, próximas, distantes.
Pais, avós, bisavós, filhos, netos, tios, sobrinhos, cunhados, empregados, um desfile sem fim de fatos e figuras que nem sabíamos que sabíamos, nem lembrávamos que não esquecêramos.
Na mesa grande da cozinha, nós três éramos muitos. Ora com vinte anos, ora com mais de cem, éramos muitos. Inúmeros.
Compramos e vendemos fazendas, plantamos aqui e ali, escalamos árvores, ouvimos músicas, lemos livros, andamos a pé, a cavalo, de trem, de jipe, atravessamos rios, pontes, porteiras, saímos pra não mais voltar. Voltamos sempre.
Na mesa da cozinha, muito maior que nós, nós três, que éramos tantos, dividimos, na primeira noite, o presente e o passado, as idas e vindas, a vida e morte com alguém que, continuação de nós todos, tantos, inúmeros, tinha dupla função: filho e sobrinho.
Filho de meu irmão, sobrinho de minha irmã – e meu, claro –, ele ouvia, falava, lembrava. Algumas de suas lembranças pareciam incorporadas, coladas, herdadas. Nada mais natural. Família é mundo múltiplo, múltipla multidão. Mistério palpável, insondável.
Mistério palpável, herdado de avós ou bisavós, de pais ou tios, o sobrinho carrega o estranho – e bendito – dom, reservado a poucos, de saber alimentar os famintos.
Quase madrugada, um prato feito com antigos e cuidadosos costumes familiares e artesanais surgiu à mesa, fechando a conversa, segurando o tempo, unificando as épocas, sacramentando os laços. Irmanando.
Ao lado de minha irmã, meu irmão, meu sobrinho, enquanto degustava e revivia sabores inesquecíveis, ouvi, pertinho, um sussurro amigo.
A voz de Carlos Drummond de Andrade, mineiro do interior, cidadão universal, me segredava, como se não soubéssemos:
“Há sempre uma família na conversa.
Aqui presentes avós há muito falecidos. Mas falecem deveras os avós?
Alguém deste clã é bobo de morrer?
A conversa o restaura e faz eterno”.
Obrigada, Vivina, por esta deliciosa crônica adornando o blog! Muito singela e tocante esta imagem de Drummond segredando seus versos: “Mas falecem deveras os avós? Alguém neste clã é bobo de morrer?” Encantados, sim. Mortos, nunca!” beijo enorme, menina!
Eu e Vivina de Assis
Imagem:
Jose Roberto V Moraes via Compfight
- Acompanhem os posts de meus convidados, listados logo abaixo! Já, já tem mais gente bacana por aqui!















“Ouvindo a Vivina assim, dá até vontade de ter família. Família torta igual à minha, igual a todas. Muito de perto ninguém é normal, nem família nenhuma é perfeita. Mas deixando de lado o imperfeito, que bom ter uma família e saudades, muitas para lembrar.
Voce, Denise, está bem de amigos. Está bem de família.
Beijo, menina(s)
Graças a Deus, tenho amigos de verdade. Poucos, mas verdadeiros. Sobre a crônica da Vivina, fico imaginando estas famílias de antigamente. Não vemos mais isto hoje em dia. Uma pena.
abraço, garoto
Nossa, se não tivesse assinado, eu diria que este texto é da Vivina. O jeiot gostoso de ter saudades, de lembrar de quem está por perto, e quem já se foi.
E, temos de concordar, avós não morrem, nem pessoas que gostam de viver e ser feliz.
Beijos prás duas.
Ah, ah, Aninha, eu também reconheço a escrita dos meus autores preferidos, apenas pelo estilo. Identificação imediata, né?
A Vivina faz a gente sentir até o cheiro da terra e ouvir o canto dos pássaros!
beijo, menina
Ah, Denise, Aninha e Valter, amigos mais que queridos:
Pois é, esses afetos familiares fazem muito bem. Tanto, que a gente até escreve sobre eles.
Os amigos lêem, comentam, e tudo isso me emociona, de verdade. Posso querer mais?
Beijos triplos
Vivina
Vivina,
Uma boa escritora merece toda nossa admiração. Uma boa escritora amiga nossa, merece nossa admiração triplicada, pois nos deixa orgulhosos, hehe.
beijo, menina
[...] passarinhos do mundo, da editora Autêntica, é o novo livro de minha querida amiga Vivina de Assis Viana, que acabei de ler para a minha Princesinha, há alguns momentos, antes de escrever este [...]