- Para celebrar o 7º ano deste blog, convidei grandes e especiais amigos e amigas, para me honrarem com sua escrita, e encher o blog de alegria e boas ideias! Hoje, dando sequência à temporada de guest posts, com vocês, o meu querido amigo e escritor Valter! Boa leitura!
Um amor de verão
por Valter Ferraz
Izildinha não titubeou: apanhou o folheto que encontrara caído na calçada, meio úmido pelo sereno da manhã e digitou os sete números. Atendeu do outro lado uma voz rouquenha, arfante, que denunciava um ou uma fumante inveterada, idade irreconhecível, sexo indefinido.
Sem saber com quem ou com o quê falava, foi logo ao ponto:
– Por favor, preciso encomendar um trabalho.
A voz rouca do interlocutor fez as perguntas de praxe, deu o preço e marcou a hora.
No dia e hora combinados, Izildinha vestiu sua melhor roupa, botou perfume, salto alto e foi toda rebolante ao destino. Seus problemas se resolveriam, enfim.
Para surpresa de Madame Yoná (esse era o nome grafado no folheto) o trabalho não era para ela, afirmou Izildinha. Explicou bem detalhado: queria que a vidente arrumasse um novo amor para a ex-mulher do Romualdo. E que fosse o mais breve possível, suplicou.
Sem entender muito bem o porquê da encomenda e sem querer entender mesmo, a cartomante jogou os búzios, balançou a cabeça pensativa e fez toda a mis-en-scéne esperada de uma vidente de respeito. Izildinha gostou. Não fez muitas perguntas. Sacou o cartão de crédito e pagou. Maravilhas dos tempos, o cartão de crédito resolve um punhado de problemas. Explicar gastos inexplicáveis, por exemplo. Uma mão na roda.
A amiga Leodete não entendeu nada. Ir à cartomante e pedir um novo amor para a ex-mulher do amante?
–Você pirou na maionese, Izildinha?
Izildinha explicou pacientemente. Só com um novo amor que lhe enchesse as horas e o coração a bruxa da ex-mulher deixaria o Romualdo em paz, entendeu? E com o terreno livre, ela, Izildinha, podia desfrutar do amor que conseguira arrancar. Simples, assim.
Pediram um Proseco e brindaram. À inteligência feminina, claro.
***
Nota do Valter:
Esse texto veio à reboque do comercial de televisão que ainda está no ar:
Você já deve ter visto: a moça recebe um telefonema. Deduz-se que é um convite para um encontro, porque ela se banha sorridente, passa mil cremes, maquiagem e perfume. Tudo em câmera lenta. Tudo com grande prazer. No restaurante, ele vai logo dizendo:
- Olha, eu queria dizer que eu errei. E que eu quero voltar.
No que ela responde:
- E eu queria te dizer…que a fila anda.
Levanta e vai embora.
Toda vez que vejo o comercial fico pensando:
Essa fulana está se sentindo. Quando estiver com a bunda caída, o coração machucado e a fila já tiver andado também para ela (porque não tenham dúvida: a fila anda para todos(as), qual será o procedimento da sujeita?
Obrigada, Valter, pelo texto excelente, provocativo e interessante! Estou tão feliz por ter sua escrita abrilhantando o aniversário do blog, que, como boa anfitriã, deixarei minha alma feminista sossegada e nem argumentarei, ok?
- Continuem acompanhando os posts de meus convidados, na festa de 7º aniversário do blog! Logo, logo tem mais gente bacana por aqui!
Imagem:
H Matthew Howarth via Compfight















DE, quem agradece sou eu. Ver Izildinha e Leodete em lugar de destaque e em época de aniversário é uma honra. “Minhas meninas” ficam todas sissi, se sentindo.
Ah! tinha curiosidade de saber o que vc pensa do assunto, viu?
Beijo, menina
Ah, ah, quer saber,é? Prometo que faço um post sobre o assunto, hehehehe. Agora, é dia de festa! Afinal, sou feminista, mas sou educada, kkkkk.
)))
Falando sério, a fila anda para todos, mas a sociedade é cruel com as mulheres. Abrir mão de um relacionamento por N razões significa correr o risco de ficar sozinha, porque a “bunda cai” um dia, e beleza é sempre fundamental? O homem, por mais velho e caído que esteja, sempre terá uma jovem linda a seu lado? Em uma sociedade que cultua a juventude, a beleza e o patriarcado, mulheres feias, idosas ou “caídas” são discriminadas duas vezes: por ser velha ou feia e por ser mulher.”
Você pediu, esta aí…
abraço, garoto
e eu aqui, que não sou aniversariante (só leitora, amiga) ia responder como boa feminista.
Denise foi mais rápida, Valter.
O teu conto é lindo, mesmo. Só que CANSA muito ser apenas um corpo bonito a ser consumido. Ou ter a nossa existência restrita a parir, educar, cuidar.
#raiosmultiplos costuma ser a minha expressão (a educada, claro) para a situação
Lúcia,
gosto muito de ouvir o outro lado. Neste caso específico, interessa-me pois pretendo dar continuidade no assunto em outra oportunidade (faço muito isso, aproveito a idéia para outros textos).
Brinco muito com a Denise (correndo às vezes até o risco de magoá-la, mas ela sabe que é uma deferência minha pois não tomo certas liberdades com todo mundo). O antagonismo machismoxfeminismo foi um ardil criado para vender revistas e render assunto para a grande mídia e muitas vezes embarcamos nessa canoa furada. Existimos como homens e mulheres e nos tempos atuais as “funções” estão misturadas que já nem sabemos dirieto quem somos.
Fico imaginando um casal tipo: homem+homem ou mulher+mulher como se devem dar as rusgas, os desentendimentos quando o tema é roupa a lavar, cozinha e limpeza?
A fila anda para todos, é fato e se a mulher ainda é cobrada por manter-se sempre linda e perfumada em parte a culpa (desculpem, é o que eu acho)é também dela.
Bom, chega de encrenca acho que arrumei um punhado de motivos para vc usar suas outras expressões.
Para aliviar minha barra:
Beijo, menina
Acho que aqui é o Valter falando, usando a conta da Aninha, né não? Compartilham tudo no casamento, até a conta de email, kkkkkk
abraço,garoto
Lu,
O Valter é super antenado nas questões sociais e seus livros retratam a violência em todas as suas formas, da criança abandonada, vítima da violência familiar e imersa no crime e no vício, da família despedaçada pelas razões que discutimos sempre em nossas rodas feministas, e mais outras questões sociais. Ele é um escritor realista, e consegue me fazer chorar quando leio seus textos intensos de tanta realidade.
Cansa mesmo este reducionismo a que te referes, mas a gente continua na luta por dignidade e valorização, não só da mulher, mas de todos vítimas da “bunda caída”.
beijo, menina
Viximaria, DE é isso mesmo, estava no perfil da Aninha e eu nem me dei conta. Mas é isso. Aqui em casa é tudo junto e misturado mesmo, por enquanto ainda não uso as calcinhas dela e só.
Esse tempo todo de convivência acho que conheço um pouquinho de voce e voce muito de mim, não dá para esconder opiniões e maneiras de enxergar o mundo.
Admiro tua luta particular e apoio, claro. Não tenho muita paciência para nhém, nhém, nhém embora concorde que vcs podem e devem lutar para modificar o que está errado e como tem coisas erradas, não é mesmo?
De, por isso a importância de madame Yoná. O medo de ficar só, com a bunda e o resto todo caído, e a fila andando, sempre.
E pensar, que isto tem importância para tantas mulheres. Acho uma pena. Talvez porque, como vc bem sabe, meu casamento até aqui tem sido bem sucedido, mas de qualquer forma, acho uma pena, uma mulher se pegar a qualquer coisa para segurar um homem.
Creio que eu não faria isso. Nunquinha, mas…
Beijos meu bem.
Aninha,
)
Que alegria tê-la aqui, em meu cantinho!!!
Pois é, infelizmente, é o que mais vemos, hoje em dia. Mulheres que se submetem a um relacionamento, às vezes doentio, violento, ou simplesmente sem afeto, para não ficarem sozinhas, porque a possibilidade de vir a ter um novo relacionamento é difícil, e, em alguns casos, impossível.
beijo, menina