
Hoje é o dia da Consciência Negra no Brasil, e, trago aqui uma reflexão sobre minha experiência diária em escolas de periferia, no convívio com alunos que trazem em si, marcas da discriminação e do preconceito, por sua etnia e condição econômica desfavorável socialmente.
Alunos pobres e negros
Sempre questiono se nós, professores, estamos preparados histórica, social, pedagógica e emocionalmente para lidar com as questões relacionadas a racismo, discriminação e preconceito. Os alunos de etnia negra são muito sensíveis a tais temas e reagem negativamente diante de colocações mal fundamentadas, que desencadeiam interpretações equivocadas.
“preconceito” e “discriminação” são definidos em termos de uma reação à diferença, enquanto o racismo, como uma característica persistente que reflete e recria a desigual distribuição de poder na sociedade. (GILLBORN, David. Racism and antiracism in real schools: theory, policy, practice. Buckingham: Open University Press, 1995. p 136).
Miséria, ausência da família, descaso do Estado, a sedução da vida “fácil” do crime, e outros tantos motivos podem ser considerados como uma pena de morte. E compulsória. Quase todos trazem esta sentença sobre suas vidas. E eles tem consciência disso! Um aluno destes, certa vez, me disse: “eu não consigo aprender mesmo; vou é ser soldado, que eu ganho mais.” E morre cedo”, eu disse; ao que ele retrucou: “morro, com dinheiro no bolso”.
Não os intimida a vida marginalizada e a sentença de morte iminente. A vida deles já é tão medonha, que morrer nada mais significa, infelizmente. Eles precisam querer viver, de verdade, uma vida plena, digna, não essa que eles têm.
Se analisarmos bem, perceberemos que esses meninos carregam um estigma, uma sentença, que é a própria vida que têm. Uma via sem saída, muitas vezes. Muitos deles vão morrer cedo, muito cedo. Na maior parte dos casos, não dá nem tempo de tentar fazer algo. Parece uma maldição, um estigma mesmo! Poucos conseguem livrar-se dessa sentença.
Crianças e adolescentes sofrem diariamente o preconceito e a repressão por serem pobres e morarem em comunidades carentes, possuírem pouca escolaridade, e nenhuma perspectiva de mudança. Muitos são negros e feios, segundo a descriçao feita por eles mesmos, que sentem na pele a discriminação na hora de procurar uma vaga de emprego ou de transitar por determinados ambientes. “As pessoas têm medo da gente, e a polícia dá na nossa cara”, alguns me dizem.
A maioria destes alunos tem , na figura feminina, um referencial de pai e mãe ao mesmo tempo. Mulheres, seja a mãe ou a avó, que carregaram a família sozinhas, são reverenciadas por cada um deles. Talvez isto explique a trajetória de alguns deles, que conseguem escapar do estigma e da sentença de morte.
Há poucas exceções, infelizmente, mas, talvez o suficiente para termos alguma esperança, como este exemplo que me foi compartilhado pela amiga Maria Elena, de um médico negro, cirurgião famosíssimo que, até os 5 ou 6 anos de idade, tinha uma família normal:
“Do dia para a noite, o pai abandonou a família, e ele, um irmãozinho e sua mãe tiveram que deixar a casa onde moravam e foram morar em quartinhos miseráveis. Para sustentar os dois filhos, a mulher trabalhava em três lugares, o que lhe deixava sem energia. Qual seria o destino dessas crianças? Marginalidade, nao é mesmo? Mas, não no caso deles, que hoje são dois médicos respeitados.”
Infelizmente esses casos são exceções. A maioria desses meninos acabam na vida miserável e estigmatizada que a gente conhece. E é triste perceber que, não só o pessoal da “Justiça”, mas todos os envolvidos diretamente no trabalho com adolescentes “de risco”, não estamos preparado para tratar com esses meninos. São estigmatizados como “bandidinhos” irrecuperáveis…
Discussão sobre racismo na escola
Em minha experiência diária como professora, a cada aluno meu que morre, vítima de violência por ser negro e pobre, e, consequentemente, um bandido, penso no quanto ele é precioso. E o primeiro passo para ajudá-los é romper a distância e o preconceito que existem em relação a estes meninos.
O preconceito reforça a ideia de que o genocídio nas regiões mais pobres do Brasil é algo natural e que estes meninos pobres, em sua maioria, negros, não têm perspectivas de vida, ou seja, vão morrer de qualquer jeito. E de nada adianta tentar entendê-los ou fazer algo para ajudá-los. Será?
Embora a lei determine que a escola deva debater a importância do negro em nossa cultura, na realidade, não se discute com profundidade sobre a questão. Muitos professores preferem adotar uma estratégia de não interagir ou falar superficialmente sobre o assunto.
Isto é muito ruim, pois professores e alunos perdem uma valiosa oportunidade de discutir abertamente sobre a maneira como o racismo é construído. É preciso que os professores estejam mais conscientes das formas como eles podem perpetuar, ainda que sem intenção, o racismo e o preconceito na sala de aula.
E volto à questão que levantei no início deste post: se nós, professores não estivermos, de fato, preparados para tal discussão, ao invés de desconstruírmos atitudes racistas, as reforçaremos. E o espaço escolar, onde estes meninos poderiam ter a chance de sobreviver ao estigma do preconceito e da marginalidade, ao lhe fechar as portas, evidencia o poder que o racismo tem de excluir as pessoas.
Leitura sugerida:
Histórias de Professores de Línguas e Experiências com Racismo: uma reflexão para formação de professores (de Aparecida de Jesus Ferreira)
Este post participa da Blogagem Coletiva com o tema Dia da Consciência Negra do Blogueiras Feministas. Participe: nos dias 20 e 21 de novembro, escreva um post no seu blog sobre o tema e envie o link de seu post para o link acima. Ele entrará numa lista de posts participantes que será publicada no dia 22/10.
Imagem: daqui em CC











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