Meu amigo e ilustre escritor Ricardo Ramos, sempre me lembra de que as melhores histórias estão nas ruas e me aconselha a colhê-las no dia a dia para transformá-las em textos literários. Tenho procurado seguir seus ensinamentos à risca, Lord, sem pretensão nenhuma de ser uma escritora de estirpe como você.
Esta crônica é inspirada em conversa que tive, semana passada, com uma senhora muito falante, sorridente e de bem com a vida, enquanto viajávamos de trem, na volta para casa. Não tenho o hábito de puxar assunto com pessoas na rua, mas, o papo aconteceu tão naturalmente, que parecíamos velhas amigas – aos olhos de quem nos observava, às gargalhadas, enquanto ela ia contando suas histórias. Uma delas me impressionou e divertiu ao mesmo tempo, e vou relatá-las aqui para vocês.
Uma senhora, já bem idosa, vivera longos anos com seu marido, até que a morte os separou. O impacto sobre ela foi tão intenso, que, em seu delírio fúnebre, pediu-lhe que não a deixasse sozinha e que a viesse buscar para ficar com ele para sempre. Mal imaginava que seu pedido fora registrado…
O tempo de luto passou e a senhorinha retornou à sua vidinha, preocupando-se apenas em aproveitar as regalias de sua “solteirice”. Tornara-se uma viúva vaidosa e mais cuidadosa com a aparência. Nem se lembrava mais de seu pedido “ao pé do leito derradeiro” de seu amado.
Certo dia, estava a alegre viúva (sem trocadilhos), no salão de beleza, cuidando de suas unhas. Conversava alegremente com a manicure, quando, de repente, arregalou os olhos, desesperada:
- Não quero ir! Vai embora daqui! Não deixem ele me levar! – gritava, apontando para o nada, para espanto da manicure que nada entendia.
Teve uma crise hipertensiva e foi hospitalizada. Sobreviveu. E jura, a quem indaga sobre o que acontecera, naquele dia, no salão de beleza, que o falecido estava lá, diante dela, de braços abertos a dizer:
- Você não pediu? Vim te buscar. Vambora?











