
A notícia de que um menino de 12 anos denunciou a mãe por deixá-lo sozinho com os irmãos menores, trancados dentro de casa, levou-me a fazer alguns questionamentos. E, se fosse uma menina, de 12 anos, trancada em casa com os irmãos menores, a notícia teria esta repercussão? Ah, mas já é uma moça! Tem de cuidar dos irmãos! – talvez muitos diriam.
E fiquei a matutar com meus botões: com 12 anos, eu fazia comida e outros afazeres em casa e ainda cuidava de meus irmãos menores. Os meninos são “incapazes” de cuidar de si e dos irmãos? Por que não há o mesmo espanto quando a “criança” de 12 anos, com a responsabilidade de cuidar dos irmãos, é uma menina?
Durante toda a minha vida, vivenciei situações como esta. Mães que precisam trabalhar, deixam os filhos pequenos sozinhos em casa. A servente de uma das escolas em que trabalhei, deixava as duas netas meninas, de 7 e 9 anos, sozinhas em casa, para poder trabalhar. E era no horário noturno! Eu ficava aflita por ela, mas sabia que isto era mais comum do que imaginamos:
Utilizando como contexto o ambiente familiar, Ferreira e Mettel (1999) estudaram as relações entre crianças de 20 famílias residentes na Vila Paranoá, DF, focalizando especialmente a realização de tarefas domésticas, quando irmãos mais velhos são responsabilizados pelos cuidados aos irmãos menores durante a ausência dos pais para o trabalho. A média de idade dos filhos responsáveis pelas tarefas domésticas na ausência dos pais foi de 12 anos, com maior percentual para o sexo feminino (85%). As tarefas domésticas compreendiam o preparo de refeições, a organização da casa e os cuidados com as crianças menores. (Instituto de Psicologia – UNB)
Minha filha, com 12 anos, ficava em casa com o irmão, quando eu ia trabalhar. Nem sempre tínhamos condições de ter uma pessoa para cuidar deles. Se formos averiguar quantas crianças estão sozinhas em casa, enquanto a mãe trabalha, ficaríamos espantados? Talvez, não.
Voltando à pergunta inicial: “e se, em vez de um menino, fosse uma menina de 12 anos?” percebe-se que existe a mensagem subliminar de que os meninos não devem arrumar a casa, olhar os irmãos ou fazer comida – coisas de mulher, de mãe ou de empregada.
Não acredito que a educação materna possa transformar um homem adulto em um ser machista e incapaz de realizar qualquer tarefa. Penso que crianças que crescem tendos as tarefas cotidianas divididas igualmente entre homens e mulheres, provavelmente se tornarão adultos comprometidos com o respeito aos direitos iguais para ambos os sexos.
Eu disse provavelmente, porque, na prática, nem sempre o desfecho é este. Infelizmente, vemos a sociedade claramente dizendo que menino não deve cuidar da casa, nem cozinhar, nem ajudar nas tarefas domésticas. E, os que o fazem são discriminados e estigmatizados como “diferentes” ou “efeminados”. Quantas vezes ouvi meu filho dizer que não ia fazer suas tarefas dentro de casa porque estas eram “coisas de mulher”! Se eu não o eduquei assim, de onde ele trouxe esta ideia?
Os pais exigem independência em meninos desde cedo. Estes são encorajados a serem corajosos e os mais fortes. Por que, então, quando se trata de cuidar de sua alimentação ou do lugar em que moram, tornam-se incapazes? “Comer” não é uma necessidade tanto de homens quanto de mulheres? No entanto, apenas as meninas, desde cedo, são ensinadas a ter responsabilidades domésticas.
Assim como os meninos precisam saber como cuidar de uma casa, as meninas precisam saber resolver situações, ditas masculinas, porque, nem sempre, um homem estará lá para cuidar destas “coisas masculinas” para ela; da mesma forma que, nem sempre, uma mulher estará lá para cuidar destas “coisas femininas” para os meninos.
O homem que adota um comportamento machista nas tarefas domésticas, na realidade, não está preocupado com sua masculinidade. A meu ver, tal atitude só revela seu lado egoísta, egocêntrico. Por que vou cozinhar ou limpar, se há sempre uma mulher para fazê-lo por mim?
E a sociedade segue, achando muito natural que uma menina de 12 anos seja responsável por si e pelos irmãos, e um absurdo quando o protagonista seja um menino da mesma idade.
imagem: daqui, em CC














Menina, sei lá se nos tornamos superprotetores hoje em dia, mas eu não gosto de deixar minhas filhas (10 e quase 8) sozinhas em casa nem por meia hora. E olha que moro em condomínio fechado e tenho bons vizinhos, que poderiam ajudar em caso de necessidade. E, salvo raras exceções, eu acho que uma criança de 12 anos, seja menino ou menina, não tem maturidade para cuidar de irmãos menores.
Acho, sim, que ajudar os pais em casa, sob supervisão de um adulto, é muito importante. Mas acho complicado fazerem tudo sozinhos.
Não sei, só meus pensamentos.
Hoje em dia, embora vejamos muitas crianças em situações como esta, por necessidade de a mãe trabalhar, sabemos que não é o mais adequado. Nós podemos ter o luxo de colocar nossas crianças em creches, ou pagar alguém para olhá-las, ou deixar sob a supervisão de alguém mais velho, mas, grande parte da população assalariada ou da economia informal, não tem outra alternativa a não ser deixar os filhos sozinhos. Uma lástima.
beijo, menina
Uai, meu oito + fecha parênteses virou carinha de óculos. kkkk
Super concordo, com 12 eu já sabia me virar na cozinha… homem é tudo retardado mesmo =P
Não, Luanda, são apenas acomodados, porque aprendem que estas são coisas de mulher. No caso em questão, nem menina deveria ficar sozinha cuidando de irmãos menores. A necessidade leva as mães a estes extremos. Infelizmente, a responsabilidade precoce cai, na maior parte, sobre as meninas.
beijo, menina
acho que com 12 anos só as crianças que vivem em situação de risco já sabem se cuidar, por que tiveram que aprender na raça ,mas se uma criança na mesma idade foi criada no colo da mamãe vai ser incapaz de se virar na vida e verá divisões e repartições de tarefas como coisa natural, conheço homens criados cuidando dos irmãos menores que se tornaram ótimos pais (superprotetores logico!) sabendo como é não querem o mesmo para os filhos que se tornam incompetentes para ficarem sós.