Ao sair para o trabalho, hoje, percebi que o dia estava “diferente”. Como decidi deixar o carro em casa e usar o transporte coletivo, demorei muito tempo para chegar à zona Oeste do Rio, onde leciono em uma Escola Municipal.
Eu estava muito irritada pois os ônibus demoravam muito a passar e, quando apareciam, não paravam no ponto. Embarquei em uma dessas vans que fazem o transporte alternativo e fiquei irritada com a atitude machista de dois indivíduos, dos quais dispenso comentários aqui.
Desci da van e tomei outras duas conduções para chegar ao trabalho. Compreendo por que há tantos carros na rua. Transporte ruim… Atrasada, ao chegar ao colégio, dirigi-me para a sala de aula, com meus alunos, que me esperavam compreensivos, e pensei: eles não têm nada a ver com minha irritação. Deixei os problemas do lado de fora da sala e comecei minha aula.
Um choque de realidade
Naquele exato momento, uma tragédia acontecia em uma escola vizinha à minha: um homem invade a instituição e dispara tiros contra os alunos. A Secretaria Estadual de Saúde confirmou a morte de 11 estudantes. Outros 13 adolescentes ficaram feridos.
Em poucos minutos, vários pais chegaram à nossa escola, para buscar seus filhos, temendo que a violência se estendesse até onde estávamos. Uma das mães veio buscar o filho chorando, porque sua vizinha, de 12 anos, fora morta no ataque àquela escola.
Não queria acreditar que aquilo era verdade. Chequei as notícias pelo celular, ali mesmo, na sala de aula e constatei o fato. Ligamos a tevê da escola e acompanhamos os acontecimentos, perplexos. Ainda estou chocada com essa tragédia bem próxima ao local onde trabalho e que nos afetou tanto: são colegas e familiares de nossos alunos.
Porque vamos morrer, precisamos dizer hoje que amamos…
“Fazer hoje o que desejamos tanto, abraçar hoje o filho ou o amigo. Temos de ser decentes hoje, generosos hoje … devíamos tentar ser felizes hoje. A morte não nos persegue: apenas espera, pois nós é que corremos para o colo dela. O modo como vamos chegar lá é coisa que podemos decidir em todos os anos de nosso tempo.” (Lya Luft, em Perdas e Ganhos)
Neste momento, em que muitas mães choram seus filhos mortos, compartilho a dor e o sofrimento que a maldade humana traz em si: a realidade da morte. Estou exaurida emocionalmente. A dor de mãe voltou. Não quero mais falar sobre o massacre dos alunos. Peço paz e conforto para mães e familiares. E perdão por reclamar tanto de meus problemas tão pequenos.
Imagem: daqui










