Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo.
(Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas)
Quem conhece a obra citada, sabe que Machado de Assis criou um narrador – Brás Cubas, que resolve contar sua vida depois de morto. É a história de um morto que resolveu escrever suas memórias. Assim, já que não pertence mais ao mundo terreno, o narrador situa-se além de nosso julgamento e não está preso a nenhum código moral ou social.Desta forma, pode livremente expor, de forma irônica, os privilégios da elite da sociedade carioca do século XIX. Isto torna-se claro para quem lê a obra.
Entretanto, quem não conhece esta, ou qualquer obra literária, não devia tecer juízos de valor a respeito dela, principalmente quando se trata de uma obra machadiana. E a situação é mais constrangedora ainda, quando o desconhecedor da obra é uma pessoa que se intitula educadora e “dona” da instituição de ensino, na qual só se faz o que ela determina. Já imaginaram um dono de clínica, que não seja neurocirurgião determinando que materiais o médico pode usar na cirurgia?
Livro que tem defunto na “minha” escola, não!
Algo semelhante ocorreu comigo. Indiquei, certa vez, a obra Memórias Póstumas de Bráz Cubas, citada acima, para meus alunos do curso de Literatura. Uma obra clássica, analisada há décadas em qualquer instituição de ensino, cujo enredo não tem nada de ofensivo, salvo para a elite criticada na obra, se fosse o caso. Tive a infeliz ideia de ilustrar um texto, que distribuí para a turma, com uma cena do livro em que o defunto aparece deitado sobre uma mesa, cercado de velas. Foi a gota d’água!
A educadora-dona-da-escola recebeu a “denúncia” de alguns pais e veio tomar satisfações. Quando tentei explicar que tratava-se de um a célebre obra de Machado de Assis, cuja narrativa utiliza um autor defunto para expor problemas de nossa sociedade que existem até hoje, ela não me deixou continuar:
– Eu não quero saber de livro que tem defunto na “minha” escola! Não me interessa se é clássico, se é célebre ou o (palavra “impublicável”)!
Não houve argumento que a convencesse. Ficou claro que ela nunca lera Machado. Talvez , obra alguma, arrisco-me a julgá-la. E, para manter meu emprego, suspendi o trabalho com as memórias póstumas de Brás Cubas, que nesta hora, junto com Machado, reviravam-se em suas tumbas, diante de tanta insensibilidade e ignorância a respeito de um romance de tanta profundidade e sutileza.
Pais e educadores não foram capazes de perceber a importância de um texto, nada “defunto”, pelo contrário, vivíssimo. que atualiza, de forma irônica, os processos em que nossa sociedade foi formada, suas contradições e os desmandos e autoritarismos que ainda hoje estão presentes.
imagem: daqui











DE,
prá ver até onde vai a ignorância, principalmente daqueles a quem confiamos a educação de nossos filhos. Imperdoável.
Vou responder aqui o comentário de “lá”: acho que aos borbotões não será mais possível. Ficarei feliz se conseguir extrair alguma coisa, pequena que seja.
Obrigado pela torcida.
Beijo, menina
Tô passada.
Gente, parece mentira!1 Que é isso.
Ridicula a atitude dela e ridiculos os pais!
Que demonstração de baixa ignorância.
Denise, cheguei aqui por indicação da Silvia Schiros e adorei seu blog.
Bjoks
Paula
Campinas – SP
Paula,
Infelizmente, donos de estabelecimento de ensino tratam o colégio como seu negócio e como tal tem de funcionar como eles determinam, ainda que dissociado do objetivo educacional.
Obrigada pela visita,Paula, bem recomendada pela querida Silvia! Volte sempre!
beijo, menina