Professor, um acessório descartável?

Será que nós estamos desenvolvendo a "síndrome de Bournout", que, de acordo com uma pesquisa realizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) atinge cerca de 25% dos professores? "Não é stress, depressão ou angústia: é pior, pois o professor se transforma num robô, o que é muito grave, porque a educação pressupõe dedicação.

Essa síndrome faz com que o trabalhador perca o sentido de sua relação com o trabalho, de forma que nada mais importa, e qualquer esforço parece inútil, causando uma enorme desmotivação, quando o profissional se depara com a violência que vem atingindo as escolas, tanto públicas quanto particulares. Essa violência, além de atingir os professores, prejudica o desempenho dos alunos."

Esta semana tive esta sensação de inutilidade pública diante de minhas novas turmas. Precisei me esforçar bastante para ter acesso àqueles alunos que pareciam não entender uma palavra do que eu dizia. Este fato me levou a pensar em minhas próprias convicções sobre meu jeito tão particular de dar aulas para platéias tão desinteressadas. Parece-me que não vêem razão para estudar "aquela coisa tão chata” a que os estou obrigando assimilar.

Olhando para os alunos, percebo que as dúvidas deles sobre os objetivos das aulas de Literatura são, exatamente, o porquê de terem de aprender tudo isso. Procuro explicar-lhes, mostrando que há vários métodos para se registrar a história da gente, nos diferentes tipos de Arte, e que eles poderão escolher em suas vidas, o método que mais lhes agradar para conhecer a história universal dos povos, e também para viajar pela aventura humana, e desvendar as questões mais transcendentais sobre o sentido da vida. E a mim compete apresentar-lhes a Arte literária. Nenhum deles me perguntou ainda por que não são obrigados então, a ter aulas de Música, ou de Pintura, ou de Escultura, ou de Arqueologia, ou de Antropologia, ou de Teatro, por exemplo.

Para eles, conhecer os movimentos literários, seus autores e obras, não serve para outra coisa, a não ser que "cai no vestibular". Então, penso que, se os alunos perguntam para que serve "esta coisa", ou por que têm de saber tudo "isso", é porque minhas aulas não estão demonstrando que eles saibam o tempo todo por que estão estudando Literatura, ou então é porque o conteúdo está sem graça, fora do contexto. O que será que o desinteresse dos alunos está querendo me comunicar? O que querem realmente me dizer com conversas paralelas, brincadeiras, sono (sim, alguns dormem na aula) e agressividade?

Parece-me que não estão direcionando estas atitudes especificamente para mim ou para a matéria que têm de aprender, mas para este ambiente monótono, asfixiante em que se transformou a sala de aula. Talvez preferissem estar em outro lugar, certamente em seus quartos, em jogos de computador, ou em outro ambiente que lhes trouxesse mais vontade de participar das atividades e não querer mais parar.

Considero-me uma mestra querida, sou carinhosa com meus garotos, mas, muitas vezes, em aula, no momento em que meu trabalho está se desenvolvendo, percebo o desinteresse dissimulado em risadinhas, conversinhas, fones no ouvido, "posso ir ‘no’ banheiro?", e imagino-me falando com as paredes. E nestas horas, sinto minha limitação para fazer as aulas criativas e interessantes, e transcender meus limites. E indago-me:"sou professora para quê?", se cada um traz dentro de si uma inquietude, uma curiosidade natural para descobrir sua história e meios para obter tal conhecimento (se assim o desejar, é claro)?

Então, concluo que, para os alunos que realmente desejam ampliar sua cultura e saciar sua sede de conhecimento, não é suficiente ficar assistindo a aulas, somente sentados naquelas carteiras. Preciso rever meus métodos. Talvez, nós, professores, já tenhamos sidos descartados e engolidos pela máquina globalizante. Uma professora-robô. Será?

Leia mais sobre síndrome de burnout, aqui e aqui.
Imagem: Repliee Q2

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