Bebês na escola?

Uma questão que me deixou muito triste esta semana, foi a das “mães estudantes” que não têm onde deixar suas crianças para irem às aulas. Eu passei a semana toda muito irritada com essa situação, pois algumas alunas do curso noturno estavam trazendo os filhos pequenos e até bebês, que choravam, corriam pelos corredores, gritavam e até se machucavam.

Enquanto o problema estava em outras salas de aula, eu me limitava a achar um absurdo e a dizer que, quando essas mães viessem a ser minhas alunas, que eu não aceitaria as crianças na sala de aula.

Mas, esta semana aconteceu! Uma aluna trouxe seu bebê e enfrentou a professora quando esta lhe disse que não poderia ficar com o bebê. A aluna disse que o agente administrativo a havia deixado entrar. Achei um absurdo, mas não fiz nada porque a aluna não estava em minha sala de aula. Mas reafirmei que se fosse comigo eu a mandaria embora para casa.

Porém, quando entrei em minha sala de aula, deparei-me com uma adolescente e seu bebê no colo! Eu já entrei na sala dizendo para ela que não poderia ficar, pois eu não admito trabalhar com crianças dentro da sala de aula. Eu estava muito irritada com a situação da outra menina que “peitou” a professora.

A aluna então, levantou-se e foi para outra sala de aula, onde também havia outras mães estudantes com seus filhos, e lá ficou alguns minutos. Achei um absurdo ela ter feito isso e desci para falar com o agente responsável pelo turno. Contei o ocorrido e perguntei-lhe se as alunas haviam pedido autorização a ele para assistir aula com os bebês. Ele respondeu que não e subiu até as salas de aula para tomar satisfações com a aluna que havia dito que ele a autorizara ficar com o bebê.

O que aconteceu em seguida foi muito desagradável. Eu ainda estava muito irritada com a situação, quando a aluna saiu da sala e, já no corredor, disse ao agente que ele não devia ter chamado a atenção dela na frente da turma e sim, chamado-a para falar em particular. Disse que ele era mal educado, ao que ele retrucou dizendo que ela era uma mentirosa.

A discussão durou alguns minutos e ela começou a chorar. Um professor tentou conversar com ela e fazê-la entender que não era bom para a criança ficar ali, e que não havia estrutura na escola para atender as crianças. A propósito, na semana passada, uma das crianças caiu e se machucou, pois não paravam de correr pelos corredores.

Quando vi a menina chorando, e a maneira gentil como o professor falava com ela, senti um aperto no coração e pensei que o que estávamos fazendo era uma crueldade. Como se elas tivessem de optar entre o direito à maternidade e o direito à educação. Elas levam os bebês por não ter outra opção. Ou levam os filhos para a sala de aula ou abandonam a escola.

O caso foi levado à Direção que determinou que não deveríamos permitir que as crianças viessem junto com as mães. Hoje, algumas dessas mães, que foram avisadas ontem de que não deveriam trazer as crianças, vieram com novamente com seus filhos e, as professoras pediram que elas voltassem para casa.

E a minha aluna hoje veio sem o bebê, mas, quando entrei em sala de aula, ela se retirou e foi embora. Senti-me uma “carrasca”. Mas os outros alunos aprovaram a proibição, pois acham que as crianças atrapalham o andamento da aula. Mesmo assim, estou muito constrangida com a situação. Penso em como deve ser difícil para essas mães estudantes se concentrar na escola, pensando no filho que ficou em casa, ou com a vizinha, ou até mesmo sozinhas.

O direito à creche para as mães estudantes é uma questão que precisa ser olhada com atenção pelo Governo. É enorme a taxa de gravidez na adolescência e o número das meninas que abandonam a escola quando o bebê nasce também é grande. É necessário que se criem condições para que essas mães estudantes possam ser atendidas, de alguma maneira. O ideal seria que houvesse um lugar adequado para essas crianças, com uma pessoa responsável e capacitada para cuidar das crianças, enquanto as mães assistem às aulas.

Outra opção seria a criação de uma creche alternativa, em que a escola disponibilizasse um espaço e as próprias mães se revezassem para cuidar das crianças. Isto se a Direção da escola permitisse tal ação. Mas, nem sei se daria certo este revezamento. Será que elas conseguiriam ficar com tantas crianças dentro de uma salinha? Seria necessário haver uma pessoa qualificada para lidar com elas. E, se algo acontecesse com as crianças, a escola seria responsabilizada por não oferecer condições para que tal “creche” funcionasse.

Conciliar estudo e maternidade não é fácil. Um dos principais motivos de abandono da escola é a falta de infra-estrutura para as adolescentes com filhos. Estou muito constrangida e preocupada com esta situação. Isto me incomodou tanto ontem, que amanheci passando muito mal, e assim fiquei o dia inteiro. Tomara que a situação dessas meninas tenha uma solução satisfatória. Para elas e para os bebês.

imagem daqui

Related Posts with Thumbnails

Tags: , , , , ,


Gostou deste post? Assine nosso RSS Feed.
AddThis Social Bookmark Button


© Sturm und drang! A cópia não autorizada é proibida.



Leia também:

Você pode seguir todas as respostas a esta entrada através do feed.

You can skip to the end and leave a response. Pinging is currently not allowed.

14 Comentários em “Bebês na escola?”

  1. Denise, entendo seu drama. Entendo o drama das meninas mães, mas a verdade é que elas tem filhos, por falta de escola na hora certa, e agora que são mães, a prioridade é a criança, com certeza.
    O Estado já anda mal das pernas na área educacional, o que diremos na área de atendimento social(creches)….O melhor é EDUCAR para não REMEDIAR!

    Bjs.

    Responda este comentário

  2. Denise, isto realmente é muito difícil.
    Se não temos creches disponíveis nem para mães trabalharem e sustentarem seus filhos, imaginem se vão se abalar para criação de creches para mães estudarem.
    Agora, o problema sério está exatamente em para de estudar. Mas isso é também um fato, que as meninas não desconhecem de todo, sabem que a maternidade antes da hora implica em abrir mão de uma série de coisas.
    Porque nós sabemos que muitos casos faltam diálogo, etc, etc, mas em muitos casos também, o que falta é vergonha na cara.
    Desculpe, mas tudo tem os dois lados.
    Minha filha foi mãe na adolescência, mas foi por pura falta de vergonha na cara e safadeza, prá ela não faltou diálogo, instrução, enfim, nem apoio.
    Beijos

    Responda este comentário

  3. Denise, vou te fazer uma pergunta grossa e mal-educada: o Conselho Escolar existe para quê?
    Casos assim que fogem da situação normal que está prevista no “manual” de procedimentos têm que ser discutidos pelo Conselho e há que se chegar a um entendimento. Acho que não cabe nem ao agente administrativo(seria o inspetor de alunos, bedel?) ou ao professor determinar quem pode ou não participar da aula. Isto tem que estar previsto pela direção da escola.
    Problemas complexos, para uma situação complexa que vivemos. E a cada dia mais situações chegarão. Os jovens querem ter tudo ao mesmo tempo agora. Atropelam acontecimentos que teriam que esperar o seu tempo. Daí, tumultuam os acontecimentos. Problemas da vida moderna, enfim.
    Acho que você tocou no aqssunto na hora certa. Hora de discutir.
    Um grande abraço

    Responda este comentário

  4. Denise, que situação desagradável a sua.As meninas querem estudar e não podem porque não têm com quem deixar os filhos que por sua vez atrapalham a aula dos demais que não têm nada a ver com isso. Não sei o que dizer. Beijocas

    Responda este comentário

  5. Yvonne

    Bota desagradável nisso!E muito estressante, pois me sinto culpada, como se a responsabilidade fosse minha, e eu sei que não é,
    Beijo, menina
    ______________________

    Valter,

    Sua pergunta é pertinente. Já existe a determinação da direçao há muito tempo, mas, só este ano é que algumas alunas passaram a trazer os filhos, e como a professora era nova, na escola, não teve coragem de pedir às alunas pra não fazê-lo. E isso abriu precedentes para as outras trazerem também. Até que uma caiu na turma de quem? Aí a Sturm aqui desencadeou tudo o que você leu aí. O agente administrativo é uma espécie de faz-tudo, que jeito, né? Só há ele, à noite, coitado…
    Bem, o que está feito não tem retorno, mas hoje haverá Centro de Estudos, e, com certeza, este assunto estará na pauta de discussão.
    Abraço, garoto
    _______________________

    Aninha,

    Realmente, é muito difícil.Sabemos de todas estas implicações, mas estamos diante de um fato: elas precisam estudar, agora mais do que nunca! Abrir mão de coisas adiáveis, concordo, mas a escola não é uma delas, penso. E eu não quero ser responsável pela evasão escolar. Minha filha também engravidou no terceiro semestre da faculdade e teve de trancar a matrícula para cuidar da Princesinha e trabalhar. Agora que ela já está grandinha, a mãe vai retornar à faculdade, fazendo um mínimo de matérias. Mas, as nossas alunas são de comunidades carentes e de risco. Adiar os estudos seria muito ruim para elas.É realmente uma decisão muito complicada…
    Beijo, menina
    ______________________

    Eduardo,

    O drama delas passou a ser meu!? Que horror… O que deveria ser competência do Município acaba sendo transferido para o profissional. Outro horror… O ECA defende que a prioridade é a criança, com certeza, mas o Estado não faz sua parte…
    abraço, garoto
    ______________________

    Responda este comentário

  6. A princípio, penso que o mais plausível seria existirem creches para que as meninas pudessem deixar os bebês e continuassem a estudar – já que a maior parte desiste e não retorna mais a sala de aula.
    Se isso não é possível, creio, como professora, que o coletivo da escola (alunos, professores, funiconários, direção) deveriam ser organizar para auxiliar essa garota, pois como vc disse :”Elas levam os bebês por não ter outra opção. Ou levam os filhos para a sala de aula ou abandonam a escola.”
    Se o problema é delas, o problema é nosso.
    beijos.

    Responda este comentário

  7. correção “deveriam se organizar”..

    ******

    Responda este comentário

  8. Vivien, não há creches e nem há estrutura na escola para isso. As meninas podem deixar os filhos com alguém. O problema não é nosso.É competência do Estado. Nós é que fazemos o papel de assistência social porque somos sentimentais. Mas não compete a nós darmos conta dos problemas sociais.
    beijo, menina

    Responda este comentário

  9. Denise, discordo de vc. Como professora vejo como um problema do aluno, um problema social,logo…um problema meu.
    Imagino que se elas pudessem deixar com alguém, fariam isso.
    Talvez por minha antiga simpatia pelo Anarquismo, creio que o coletivo deve se responsabilizar e se solidarizar com os problemas individuais.beijos.

    Vivien, estamos com insônia, hehe… As alternativas que citei no post não são possíveis de se colocar em prática na escola. A direção já determinou que não devem trazer as crianças. Mas soubemos que elas já têm uma pessoa que vai olhar as crianças. A escola não vai assumir essa responsabilidade.
    beijo, menina

    Responda este comentário

  10. Denise,
    Talvez um voluntariado, mesmo informal pudesse ser a solução, não?

    Sim, Valter, foi como eu disse à Vivien, a escola entrou em contato com os responsáveis pelas meninas e soubemos que há uma pessoa que olha as crianças. Quanto a disponibilizar espaço na escola pra isso, não há condições, pois, à noite, o diretor não permanece na escola, que fica sob os cuidados do agente administrativo, e, em muitas ocasiões, não há ninguém. Escola da prefeitura, essas coisas…
    abraço, garoto

    Responda este comentário

  11. Que sinuca de bico!
    Denise, não pode se sentir culpada. Já não existe regulamentação pra isso, pelamordedeus?! Se não tem, há de existir, porque o número de adolescentes grávidas no Brasil cresce ano a ano.
    Essas meninas são carentes de tantas coisas e quando a responsabilidade cai de sola, as cabeças ficam completamente perdidas e acham que todos devem ajudá-las.
    O certo seria uma creche. Porque essas mocinhas não se juntam e se ajudam? Cada dia uma cuida do filho da outra…ah, tá! Ninguém assume a responsabilidade de cuidar do filho dos outros.
    Beijus
    Luma, não adianta, eu vivo carregando as dores do mundo. A lei só ampara os ricos. Pobre que se exploda. Elas realmente acham que temos obrigação de ampará-las, mas, se a escola não tem suporte para atendê-las, ficam revoltadas e nós passamos a ser os carrascos. Soube ontem, pela coordenadora, que elas já têm alguém para ficar com os filhos. Por ora, o problema está sob controle.
    beijo,menina

    Responda este comentário

  12. Denise,
    Que saia justa mais danada. Juro que essas histórias me deprimem. Fico com vontade de chorar, fugir para bem longe daqui. Esse país, cada vez mais, tem o dom de me embrulhar o estômago.
    Quando minha mulher morou na Inglaterra, atuou como voluntária em uma escola pública. Seria uma forma de praticar a língua diariamente trabalhando, o que não seria possível oficialmente já que não tinha visto para isso. Ao visitá-la em umas férias, levou-me para conhecer a escola. A infra-estrutura de que dispunham era melhor do que a do Dante Alighieri, colégio particular onde estudei. O imposto que eles pagam lá tem retorno. Somos um povo abandonado.
    Beijão

    Dói-me muito ver que há dinheiro, basta ver os milhões gastos no Pan. Mas não há interesse nem vontade política para investir na educação e assistência da população carente. É uma lástima. Mas as meninas já têm com quem deixar os bebês. Por ora, a situação foi contornada.
    abraço, garoto

    Responda este comentário

  13. vivi esta situaçao ontem cheguei na escola e tive q retornar pois diseram q minha filha nao poderia ficar meus amigos de escola de ambas as turmas acharam iso um absurdo pois minha bebe nao incomodava ninguem so dormia mais …

    Responda este comentário

  14. Por que, ao invés de ficar lamentando a condição das meninas e até,talvez, ficar pedindo não sei pra quem que construa uma creche na escola,não vai buscar alguma solução. A senhora, enquanto professora e educadora e tendo pleno conhecimento de que todo mundo independente de ser mãe ou não tem direito a educação deveria procura ver alguma forma pra ajudar essas meninas mães.
    É muito fácil criticar essas meninas e mandá-la embora da escola e depois vim aqui como uma tentativa se recompuser, se desculpar. Poxa! Vai buscar alguma forma de tentar fazer os nossos governantes enxergarem essa situação, já que essas meninas sozinhas não têm força suficiente para lutarem por sua própria causa.

    Responda este comentário

Deixe um comentário.