Que crime de arte!

Observo os rabiscos que os adolescentes deixam pelos cadernos. Impressionante como cada um tem sua marca. Andando pela cidade, fico observando estes desenhos espalhados pelos muros.
E essa mania não vem de hoje. Podemos lembrar que o grafite no Brasil inicia com a pichação poética no final dos anos setenta.
Achei interessantíssimo este artigo de Flavio Calazans, do qual extraí algumas partes:
“O pejorativo tom atribuído à pichação é fruto de ignorância e pressa em escrever sem observar, fruto de uma arrogância e impáfia dos Doutores Universitários.
Os grafites têm o mesmo valor das pichações. As letras criadas pelas gangues especialmente para suas tags (assinaturas) e empregadas nas frases têm por si sós efeito estético, são linhas sinuosas, grafismos góticos ou barrocos.
Lendas urbanas e toda uma mitologia de grupo manifestam-se nas pichações velozes, feitas no ritmo do videogame e com a mesma fragmentação do videoclipe. A pichação rápida é manifestação do cérebro direito, baixa definição democrática.
Já o grafite com máscaras e cores exige tempo e planejamento e é, claramente, uma expressão de cérebro esquerdo, detalhada, consciente, alta definição opressora e fascista.
A pichação é assinada por uma tribo (tag), e o grafite tem autoria, é o artista personalizado que pode estar querendo notoriedade e projeção na mídia. Veja-se quantos grafiteiros estão nas galerias de arte vendendo para as elites.
Isto não ocorre com a pichação espontânea e anônima, obra de arte coletiva, jovem, atual. A pichação é mais sincera e, semiótica e midiologicamente falando, está mais coerente com os gêneros plásticos em crescimento nos anos 90, com a volta das narrativas de forma desmanchada, de-construídas, estilo videoclipe, zapper, onde o que tem significado, são os fragmentos e seus subtextos.
Esta arte urbana precisa ser livre, nômade, contestadora, desafiando o espaço proibido. Como uma guerrilha plástica, um grafite feito com autorização ou à luz do dia não é nômade e transgressor, mas uma mera decoração censurada e policiada, com carimbo de autorização.
Por isto, as atividades de grafite patrocinadas pelo Poder Público em oficinas ou grupos permanentes, como algumas Prefeituras autoritárias vêm fazendo, é uma afronta a esta arte, um modo de destruir a espontaneidade deste movimento urbano, uma castração stalinista realizada por pavor. São fruto do medo que os ditadores têm dos verdadeiros poetas e artistas, medo da crítica, da liberdade, do humor.
A pichação é rápida, “morde e corre” – como ensina Guevara, o “Che”, sobre a guerrilha.
Sobreposições são a regra, os muros falam, gritam.
E estes gritos atualizam-se constantemente, pois muda o contexto, estes textos anônimos figurativos e verbais (grafites são pichações, e vice-versa) estão ininterruptamente sendo reescritos, sobrepondo-se como takes num videoclipe, um ideograma chinês, um poema concreto.
Os grafiteiros autores ofendem-se quando seus bem-comportados murais são “sujos” pelas frases dos “moleques pichadores”, e esta postura de cérebro esquerdo evidencia o quanto estes não vivenciam e não compreendem este processo neolítico, esta sintaxe de sobreposições pós-histórica, esta arte efêmera, que está velha 24 horas depois de secar.
Pichadores acrobáticos atacam desde telhados de prédios até viadutos, bombardeiam suas tags e frases, desenhos e epigramas ricos em subtextos tribais, pulverizam sua identidade em qualquer lugar da cidade, navegam à deriva como nômades à caça de um espaço, uma superfície. Pura guerrilha cultural, intervenção urbana.
Incompreendidos, os pichadores são representantes da arte urbana em sua maior espontaneidade e contemporaneidade. Perambulam pelo espaço e atualizam os muros a cada tempo-contexto, estão sempre em movimento, em trânsito permanente. São os passageiros do efêmero.
Pichadores reagem contra a frieza da cidade e deixam sua marca, personalizam o espaço, des-massificam o cidadão com o poder do sorriso que repuxa o canto dos lábios e desafia, surpreende.
Amanhã, ele pode ser completado por outro rabisco de outra tribo, outro desenho, outro tipo de letra, sobrepondo-se no duelo pelo espaço e pelo fluxo de quem passou mais vezes pelo muro em uma semana. A pichação vai aos poucos se apropriando da cidade.
Diálogo plástico em que coexistem autorias coletivas, todas participam, colaboram para murais neolíticos na urbe pré-ano 2000, questionando as formas canônicas, os sintagmas visuais de cérebro esquerdo, regras de cor e composição respeitadas pelos grafites.
Um novo ritmo de significantes (suporte midiático muro) com significados de contestação.
Como disse o poeta da Revolução Russa, Maiakowski: “Não há arte revolucionária sem forma revolucionária”.
Gostei demais deste artigo!
Flávio Calazans in Mundo cultural
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Sabemos que nesses casos, como em outros, muitos artistas se revelam.
Não há como negar, que as vezes nos deparamos com imagens lindas e grande sensibilidade de autores de pichações.
Agora, não vou aceitar numa boa, nunquinha, o a forma como é feita.
essa apropriação de espaços alheios,muros, fachadas, enfim, costumo compara-los aos invasores de casas e propriedades alheias.
Um beijo e bom domingo
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Denise, prá mim PICHAÇÃO e GRAFITTES não são arte. São expressões de puro VANDALISMO e denotam falta de educação e consideração pelos bens públicos ou privados. Nada de passar a mão na cabeça de quem o faz. Meu filho Pablo quando aborrecente tentou enveredar para o caminho das pichações. Tomou uns cascudos de minhas mãos e aprendeu direitinho. Se guardou alguma mágoa é problema dele. Que resolva com analista ou da forma que quizer. Quando crianças rabiscavam as paredes decasa, fazia com que limpassem, depois de adulto vou considerar arte? pois sim!
Um beijo grande
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Aninha e Valter, queridos.
Também sou contra a depredação do patrimônio público e privado, mas não estou fazendo apologia ao vandalismo, mas , sim, constatando que existe manifestação artística escondida , sim, e que, por trás desse “vandalismo” existe um problema social muito grave: “os muros gritam”.
beijos nos dois!
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pixação é liberdade de espreção..
pois os pixadores apenas querem fama…
e na pixação eles lebertam as suas espreçoes
so pixando para saber..adrenalina corre no sangue..
paz.. p. geral
fé em deus pois ele é justo..
Vixe, Maria! Tá doido! Que expressão é essa aí? não é disso que estamos falando. Tá confundindo tudo…
abraço
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Denise, muito bom! Se tivesse lido, a minha postagem seria diferente. Mas fiz um adendo. Obrigado.
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Eduardo, vale lembrar o caráter contestador e livre dos pichadores, que é, de certa forma, “podado” nos grafiteiros financiados pelo governo. Isso me faz lembrar Camões que, pago pelo Governo Português para enaltecer a gloria lusitana, criou personagens mitológicos para, através de sua boca, denunciar e criticar a vã cobiça portuguesa.
abraço, garoto
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pixar eh crime num país onde roubar ja virou modaa…
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