O dia em que Drummond foi expulso do colégio!
O lado humano do artista

Trecho de entrevista de Carlos Drummond de Andrade a Luiz Fernando Emediato, publicada no Caderno 2, do jornal O Estado de S.Paulo em 15 de agosto de 1987.
Consta que o senhor foi expulso de um colégio. É verdade?
Drummond – Eu estudei dois anos no colégio dos Jesuítas, em Friburgo, e era considerado um dos melhores alunos da classe, mas descobriram um dia que eu era um elemento nocivo.
Nocivo, por quê?
Drummond – Talvez fosse uma tentativa de manifestar independência de espírito. Eu fui expulso de uma maneira muito arbitrária, sem direito de defesa. Fizeram uma reunião pública e, de surpresa, o próprio padre reitor declarou-me indigno, diante de todos, de permanecer naquele estabelecimento. “Ajunte suas coisas e saia da sala”, disse ele. Eu tinha 14, ou 15 anos. Foi terrível. Fui confinado num quarto, não podia nem dormir com os outros e tive de sair de madrugada, sem me despedir de ninguém.
Isso marcou muito o senhor, parece.
Drummond – Foi terrível. Tomei o trem com moral baixíssimo. Havia no trem uma viúva toda de preto, com duas meninas também de preto, e uma delas olhou para mim e sorriu. Esqueci completamente a minha desgraça e fiquei namorando a garota, mas elas desceram numa estação e meu moral voltou abaixo do zero, até chegar em Belo Horizonte.
Como o senhor explicou essa história para o seu pai?
Drummond – O jesuíta é muito falso, muito hipócrita. Neste particular foram generosos comigo, não disseram a verdade a meu pai. Apenas aconselharam que, por motivos outros, me transferisse de escola.
Mas o senhor contou a verdade para seu pai?
Drummond – Não. Meu pai era um homem muito reto, mas sei lá se ia aprovar ou não…
Ele era fazendeiro em Minas?
Drummond - Sim. Era considerado um homem muito rico, porque todo mundo era pobre no interior de Minas. Então, qualquer pessoa que tivesse um palmo de terra era um afortunado.
Como era seu relacionamento com ele?
Drummond – Não foi fácil, não. Meu pai foi incumbido pela sociedade doméstico-conjugal de ser o juiz, o justiceiro. Minha mãe era aquela doçura e, quando via que estávamos nos comportando mal, apelava para meu pai, que tomava a atitude do homem que castigava. Mas a gente nunca aprendia. Só muito mais tarde entendi que ele era obrigado a fazer aquilo. Custei a compreender isto.
Que tipo de castigo ele dava para os filhos?
Drummond – Prendia no quarto, cortava sobremesa… De vez em quando dava uns tapas. Uma vez achei que ele ia me bater e levantei a mão para não apanhar na cara e ele ficou estarrecido, pensou que eu ia bater nele. Meu irmão, que era meio safado, então gritou: “Você é um parricida”. Eu respeitava muito meu pai. Tenho muita saudade dele, muita saudade mesmo.
¨¨¨¨
Adorei isso: …”uma tentativa de manifestar independência de espírito”! Todo gênio é incompreendido mesmo…
E, para alegrar nossa alma, uma palhinha do Gênio:
Itabira
Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê
Na cidade toda de ferro
as ferraduras batem como sinos.
Os meninos seguem para a escola.
Os homens olham para o chão.
Os ingleses compram a mina.
Só, na porta da venda, Tutu caramujo cisma na
derrota incomparável.
foto: Carlos Drummond de Andrade
Tags: colégio, Drummond, expulso
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January 29th, 2007 at 4:23 pm
Ai, que delícia de entrevista. Eu amo o Drummond. Muito mesmo!
Beijos
Drummond. Sempre!
beijo,menina
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January 30th, 2007 at 3:53 am
Denise, e pensar que os jesuítas o consideravam um espírito rebelde, hein?
Abraço forte para você
Não é? Grande Drummond!
abraço, garoto
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January 30th, 2007 at 11:11 am
É ótimo ler esse tipo de história, Denise, pois nos aproxima dos mestres que admiramos, nos mostrando suas dificuldades, suas escolhas, suas fases tão parecidas com as nossas, às vezes com as nossas mesmas dúvidas…
beijo, minha linda.
E pensar que a vida de poeta é só poesia…
beijo, menina
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January 30th, 2007 at 12:22 pm
Devemos promover a paz sempre… Tb participei dessa blogagem coletiva do Lino.
Big Beijos
Sim, fazendo e não só falando, certo? Já fui lá conferir teu post.
beijo, menina
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