Paixão pela leitura

Costumo ler textos em voz alta para os meus alunos: contos, poemas, fragmentos de romances, crônicas (adoro crônicas)… Percebo que, embora minha “tarefa” (me pagam pra isso) seja ajudá-los a aprender a língua portuguesa e a refletir sobre sua gramática, tenho a consciência de que é meu dever incentivá-los a amar a literatura, por prazer, muito mais que por obrigação. A paixão pela literatura dentro de mim, faz com que dê o melhor de mim mesma, e desta forma, posso contagiá-los, pelo menos um pouco.
Paixão em escrever
A paixão está presente também, quando estou escrevendo. E a paixão é a vontade de fazer aquilo que se gosta, e não alguma outra coisa. Sinto prazer em escrever, e não entendo por que não insisti no sonho de fazer Comunicação e me tornar escritora. Escrevendo, você se encontra e encontra o próximo. Mas, tornei -me professora. E, ensinar a falar e a escrever a minha língua portuguesa é uma oportunidade de me deliciar com ela e de, também, apreender melhor seu jeito de ser.
Acredito que só quando nos relacionamos profunda e apaixonadamente com a língua é que a podemos amar e conseqüentemente, praticá-la com naturalidade, sem “erros” (não gosto dessa palavra), mas com adequações necessárias, é claro. O ensino da nossa língua portuguesa é meu campo de trabalho e minha paixão. Acredito que precisamos tratar dela bem, amá-la e não permitir as invasões, tão desnecessárias. Nossa língua já é tão bela, com o nosso estilo que é tão brasileiro!
Analfabetos culturais
No Brasil, o número de analfabetos aumenta terrivelmente. A miséria e o analfabetismo andam juntos. E, conseqüentemente, a ignorância, a violência, o desespero. Infelizmente, não entendo por que os livros são tão caros aqui no Brasil. Vejo a Denise dizer que compra livros bem mais baratos nos EUA: “A revista, que eu comprava caríssimo em Recife, aqui custa 10 dólares a assinatura anual (12 edições)!”. No exterior, mesmo com o grande poder aquisitivo que existe no Primeiro Mundo, os livros são mais baratos.
Nós dizemos às famílias que dêem livros para os filhos, incentivando o hábito da leitura, desde cedo (sou da geração que foi educada em contato com livros. Eu lia muito, tinha paixão por histórias). Mas agora as crianças não ouvem mais histórias. Penso que as editoras deveriam publicar também textos em livros de bolso, pequeninos, simples, com preços acessíveis. Ontem mesmo eu estava em uma livraria, e fiquei encantada, mas ao mesmo tempo, triste, com a beleza das edições. Parecem obra de arte, e são. Mas tão caros…
Ensinar o prazer de ler
Como professora, tenho o dever de mostrar essa paixão: ensinar como é bom ler, não só mandando o meu aluno ler, mas lendo com paixão para ele. E eu leio para eles, com eles. Sei que só fazendo isso é que o meu aluno vai se apaixonar também. E, quando ele se apaixona pelo livro, isso me faz crer que alguma influência eu tive nisso. O professor tem essa obrigação, sim, de fazer o seu aluno se apaixonar pela leitura. Se ele puder transmitir essa paixão para o aluno, o resto acontece naturalmente.
Há alunos que vêm à escola para comer, eu sei, e eu tenho de aproveitar essa oportunidade e tentar despertar nele a paixão pela leitura e pela escrita. Eu imagino que seja a única forma de diminuir o analfabetismo e a miséria em todos os aspectos. Levá-lo a “ler” o mundo de outra forma e interagir nele. Eles precisam, e todos nós também precisamos, de otimismo, de acreditar em alguma coisa, de ter esperanças, de lutar por algum ideal, ter uma paixão. E o meu ideal, a minha paixão é a leitura, a escrita, a palavra, a nossa língua. É a nossa voz. Temos que ter uma paixão. Sem essa paixão, o homem será triste, como se tivesse morrido. Sem esperança, sem voz, sem palavra…
Falar e escrever “certo”
Embora meu trabalho consista em mostrar ao aluno a normatização da linguagem, não sou radical em questões de certo ou errado, pois, embora a norma seja a regra daquilo que pode ou não ser usado na língua oral ou escrita, não devemos transformar o conhecimento dela em um mecanismo para discriminar os que não a dominam.
A norma é a marca do chamado padrão culto da língua, que é apenas uma das variantes lingüísticas. E, com certeza, não há variante lingüística que seja superior a outras. Existe, sim, a que tem mais força e prestígio, a variante dos detentores do poder, da elite econômica, política ou intelectual.
Então, vejo que no conceito de “correção” na língua falada ou escrita há dois extremos: o conservador, que toma como padrão os textos considerados clássicos da nossa literatura, e o liberal, que aceita tudo, que considera a língua um organismo que se desenvolve com total liberdade, abandonando completamente o conceito do certo ou do errado.
Entre os dois está o moderado. E neste, procuro me enquadrar. Ser moderado é respeitar a tradição gramatical, porém sempre aceitar os novos conceitos, as transformações da língua. Mas sempre consciente de que há conceitos gramaticais que são de uso obrigatório, outros, facultativo; há o apropriado, e também o inadequado, e até o inadmissível.
Na escrita, para aprendermos realmente a escrever, é necessário muito treinamento, eu sei, pois o código é mais complexo, obedece a regras fixas e rígidas. E sei também que meu aluno precisa conhecer o código para usá-lo nas ocasiões em que seja mais adequada a modalidade formal. E só vai aprender escrevendo e lendo, com paixão, eu penso, porque assim ele irá internalizar estruturas, naturalmente, com prazer.
imagem: daqui
Tags: certo ou errado, leitura e escrita, norma padrão, prazer de ler
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December 18th, 2006 at 1:31 pm
Denise,
Voce é a professora que faltou na minha vida de estudante. Que empenho, que vibracao e amor pelo que faz. E faz bem feito. Parabens!
Sou casada com PHD em Educacao e tambem acho muito bonito tudo que ele anda e andou fazendo nesta area.
Beijinhos,
ME
Maria Elena | Homepage | 03.11.06 – 5:36 pm | #
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Denise, tudo o que fazemos com paixão fazemos bem, é lugar comum, mas é verdade.Quanto a ser escritora,ofato de vc não ter feito comunicação não a impede, JoãO Ubaldo,Jorge Amado,Pablo Neruda,entre outros tb não fizeram, no entanto… Lí oque vc diz sobre não se apegare aos formalismos com seus alunos e concordo,o importante é estimular o gosto pela leitura,lendo se aprende.O preçoi dos livros e tudo o que se refere´à educação é que mata, e o nosso presidente ainda contribui com a ignorança lá dele, né?
abraços(desculpe se me alonguei demais.
valter Ferraz | Homepage | 03.11.06 – 7:39 pm | #
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Parabéns, querida, pelo teu empenho, pelo teu amor. É muito gratificante encontrar alguém que, além de amar ler, prima por dividir esse amor. Em um país onde sabemos ser deficiente o sistema de ensino, é um achado, uma grande alegria.
Parabéns, de coração. Espero passar sempre por aqui.
Beijos
Aleksandra Pereira | Homepage | 03.11.06 – 7:45 pm | #
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Obrigada, Elena, só faço o que gosto. Beijo, menina
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Já me disseram isso, Valter, mas que ficou uma frustraçãozinha, lá no fundo, ficou… Bem, o Lula teve muito tempo pra estudar, se preparar, não sei por que não o fez,,,
abraço, garoto
valter Ferraz
denise | Homepage | 03.11.06 – 7:48 pm | #
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Será sempre bem-vinda, Alessandra.
beijo,menina
denise | Homepage | 03.11.06 – 7:50 pm | #
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Bom dia Denise, muito bonito tudo que vc disse e verdadeiro tb,aproveite que vc tem um instrumento nas mãos, o fato de ser professora. Vc além de dar educação e cultura com isso ainda ensina a sonhar.Os preços dos livros ninguém mais discute, até a bienal do livro aqui em SP que muita gente gostaria de ver, mas esbarra na 1ª dificuldade, pagar para visitar.
Um beijo
Ana Pontes | Homepage | 03.12.06 – 6:23 am | #
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Denise, ví teu comentário no blog da minha esposa, fiquei preocupado. Eu não ando pisando na bola com vc não, né?
abraço preocupado…
valter Ferraz | Homepage | 03.13.06 – 6:34 am | #
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Como querer esconder a veia literária se ela lhe salta em cambalhotas? Você já é escritora, tome consciência disso. E siga em frente, página a página…
Beijos.
Anonymous | 03.13.06 – 1:30 pm | #
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Excelente post Denise. Eu tb adoro ler e mais ainda em voz alta (eu sempre queria ser chamada para ler em voz alta pra turma! hehee). Gosto de ler com entonacao de voz, valorizando os personagens e a historia. Quando as criancas crescerem um pouco mais quero fazer algum trabalho voluntario lendo para pessoas idosas ou para cegos. Aqui no Chile os livros sao bem mais caros que no Brasil, mas a gente nao abre mao de compra-los. Economizamos em outras coisas!
beijo grande,
Nani | Homepage | 03.13.06 – 3:37 pm | #
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ganhas-te uma fâ, Denise. A Ana gosta de pessoas inteligentes, em frente, moça! Libera a escritora que está presa, vai.
abraço
valter Ferraz | Homepage | 03.13.06 – 4:33 pm | #
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Oi Denise, Admiro o seu trabalho e a forma dedicada que voce tem para com os alunos.
Sabe aqui os livros são tambem caros, mas em compensacão podemos pegar todos os livros na biblioteca sem problemas. Tem uma biblioteca com servicos próprios, eu entro pego os livros que quero, passo por uma máquina, registro com minha carteirinha e trago para casa e o processo é o mesmo na hora da entrega. Posso até encomendar livros de outras biblioteca que eles pegam para mim. E para quem mora no interior eles tem “onibus bibliotecas” levando novidades e encomendas dos moradores. Esta facilidade faz com que leiamos bastante por aqui. Beijos
Elizabeth | Homepage | 03.13.06 – 4:54 pm | #
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Meu Deus, beth! que vontade eu tenho de morar aí. Se não fizesse tanto frio…
valter Ferraz | Homepage | 03.14.06 – 8:59 am | #
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Parabéns Denise, o Brasil precisa de mais pessoas como vc! Eu amo ler, mas realmente aqui o preço médio de um livro é um absurdo…que o diga meu cartão de crédito… E é o que eu vivo dizendo, se as pessoas não tem para comer, vão ter R$50,00 para comprar um livro?! Beijo no coração.
Jan | Homepage | 03.14.06 – 2:20 pm | #
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Ah, ah,Ana, gostei do “ensina a sonhar” Que responsabilidade! Nem tanto, os sonhos, a gente já os tem. Acho uma elitização do livro eventos como a bienal do livro, pois limita o público visitante ao que pode pagar para visitar.
beijo, menina
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He, he, Walter, quem não deve não teme, né, ha ha ha ha ha…
abraço, garoto
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Obrigada, amigo(a), mas nem me arrisco a me considerar como tal.
Beijos pra ti também a
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Nani, Ler sem entonacao de voz, valorizando os personagens e a historia é entrar nela e vivenciá-la. Bom este projeto que tens de ler para pessoas idosas ou para cegos. Excelente!
beijo, menina
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Uma fâ?!!! , que coisa! he he,,, A Ana é muito generosa, Valter. Mas, não posso escrever tudo que quero e penso, não, é perigoso! he he…
abraço, garoto
————————————-Elizabeth, as escolas aqui também têm este serviço, mas o acervo não é atualizado. Na minha época de estudante de Ensino médio, enquanto meus colegas jogavam pingue-pongue no recreio, eu estava enfiada na biblioteca. Na faculdade a coisa piorou: quase morava nela! Lembro-me de uma biblioteca volante, um “onibus biblioteca” que vinha à escola, também. Vc me deu umas idéias…
beijo, menina
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Não é, Valter, dá vontade de morar num lugar assim, mas a gente pode fazer isso acontecer…
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É, Jan, o jeito é virar rato de biblioteca. Pena que o acervo nem sempre esteja atualizado..
Beijo, menina
denise | Homepage | 03.14.06 – 3:12 pm | #
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Quem faz com amor não vê sacrifícios, só recompensa, tive maravilhosos mestres abnegados na arte de ensinar e na minha época tudo era mais fácil,hoje em dia temos professores,faltam livros,temos livros faltam alunos,temos alunos não tem escola..
lindo dia minha querida,
beijossssssssssssss
Márcia(clarinha) | Homepage | 03.14.06 – 9:36 pm | #
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um projeto, Denise? Conta vai.
valter Ferraz | Homepage | 03.15.06 – 6:36 am | #
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Clarinha, mesmo assim alguma coisa a gente pode fazer. Eu faço porque gosto pois não há estímulo profissionalmente falando.
beijo, menina
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Valter, falarei sobre projetos de leitura nos próximos posts.
abraço, garoto
denise | Homepage | 03.15.06 – 9:05 am | #
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Denise, eu adoro quando vc termina o coment, assim: bbeijo, garoto! ganho mais uns dez anos, eheheheh
valter Ferraz | Homepage | 03.15.06 – 4:52 pm | #
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